Nunca estive na Noruega,
digo, senão em sonhos.
E nesses sonhos vivi-a inteira,
como quem respira o gelo e o fogo ao mesmo tempo.
Conheci Munch.
E ele falava português,
eu falava norueguês perfeito.
Era estranho, mas natural.
Nos sonhos,
somos primos, irmãos,
somos a mesma pessoa,
confundindo-se entre estrelas,
entre calor e frio,
entre o silêncio e o grito.
Amávamos as mesmas mulheres,
os mesmos travestis,
os mesmos homens.
E sofremos juntos
a mesma morte de Cristo.
Segurávamos o mesmo pincel,
e ele traçava linhas,
linhas que queimavam,
linhas que sangravam,
linhas que me tocavam
como se fossem minhas veias.
Nunca estive na Noruega,
mas todos os instantes de lá
existiram em mim.
Munch e eu,
o pincel e a dor,
o amor e a neve,
confundidos
em uma única mão,
em um único sonho,
em uma única alma.
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