quarta-feira, 9 de setembro de 2026

O vento no luar

 brilha         seu

corpo

de estrelas         e folhas.

O gato da bruxa brasileira

                 Houve um tempo, nas brenhas fundas onde o sertão brasileiro encontra a floresta encantada, em que os animais não falavam apenas por feitiço, mas porque tinham mais o que dizer do que os próprios donos. Nessa época vivia dona Jandira, uma bruxa de rezas fortes cujos cabelos brancos pareciam nuvens de tempestade e cujas panelas cheias de tucupi guardavam segredos que nenhum caldeirão de Hogwarts ousaria ferver. O orgulho de Jandira não era sua varinha de aroeira, mas sim seu gato, um bichano malhado de nome Caramujo. Caramujo não era um gato comum. Ele não tinha asas de fada, nem olhos que brilhavam no escuro por causa de poções, mas possuía um pelo dourado como sol de meio-dia e um cinismo capaz de azedar o leite a dez passos de distância. Dizia-se na região que Caramujo era, na verdade, um currupio enfeitiçado, ou talvez um espírito da mata que perdera a hora de voltar para casa. O fato é que o gato detestava feitiçaria barata. Quando Jandira tentava usar feitiços de limpeza rápida na casa, Caramujo escondia a vassoura atrás da porta. Quando ela tentava preparar um chá de sumiço, o gato derrubava a erva no fogo só para ver a fumaça ficar verde e assustar o carteiro. Numa noite em que a lua parecia uma fatia de melancia murcha no céu, a maldade rondou a tapera. Veio o Anhangá das Secas, um espírito faminto por feitiços alheios, arrastando garras de carvão e soprando um vento que ressecava até a alma dos poços. Ele bateu à porta de Jandira exigindo que ela lhe entregasse o livro de rezas mais antigo da família, sob a ameaça de transformar a caatinga inteira em pedra salgada. Jandira, que já passara dos cem anos e tinha reumatismo nos joelhos, tremeu. Sua varinha estava no fundo do baú, debaixo de pilhas de panos de prato bordados.

        Foi então que Caramujo entrou em cena. O gato não fugiu, nem guinchou como um gatinho assustado. Ele arqueou as costas de um jeito tão exagerado que parecia um ponto de interrogação feito de puro desaforo. Deu três passos firmes em direção à fresta da porta onde o monstro espreitava, abriu a boca e emitiu um miado. Não era um miado comum. Era o ronco combinado de sete onças pintadas, o estalar de galhos secos sob o passo de uma anta gigante e o eco de uma trovoada de verão. O Anhangá, que estava acostumado a aterrorizar bruxos arrogantes com fórmulas complexas, recuou espantado. Ele nunca havia visto uma criatura que emanasse tanta marra sem precisar de um único encantamento verbal. Caramujo deu mais um passo, balançou o rabo com desdém e encarou o espírito com seus olhos dourados, que pareciam dizer: "Aqui não, meu filho!".

            Derrotado pela pura falta de respeito do felino e pela certeza de que mexer com um gato brasileiro é pedir para ter o azar dobrado, o Anhangá desmanchou-se em uma nuvem de poeira e sumiu rumo ao horizonte. Dona Jandira respirou fundo, pegou o gato no colo e afagou-lhe as orelhas. Caramujo ronronou baixinho, aceitando a homenagem como quem cumpre apenas a sua obrigação diária. E desde então, os moradores do sertão aprenderam que, enquanto houver uma bruxa sábia e um gato malhado à sombra da varanda, nenhuma assombração do mundo terá coragem de estragar a tarde de café com bolo de fubá.

O bruxo e a biciclets

             Houve um tempo, nas neblinas úmidas de Yorkshire, em que a magia e o metal comum mantinham uma trégua silenciosa e desconfiada. Os bruxos daquela região viviam recolhidos em suas chalés de telhados de musgo, olhando com desprezo divertido para as engenhocas grosseiras que os trouxas inventavam para se locomover.

Entre eles vivia Barnaby Gasket, um bruxo de barbas tão longas que precisava amarrá-las com fitas de veludo para não tropeçar nelas ao preparar poções. Barnaby era um homem de sabedoria antiga e paciência curta. Ele desprezava qualquer coisa que exigisse suor físico quando um simples Accio ou uma vassoura enfeitiçada podiam resolver o problema.

Numa tarde de outono, ao retornar do vilarejo trouxa de Little Snoring com uma cesta de nabos encantados, Barnaby encontrou algo abandonado à beira da cerca de sua propriedade. Era um emaranhado de tubos de ferro enferrujados, duas rodas finas com raios de arame que tilintavam ao vento, e um selim de couro rachado. Era uma bicicleta de trouxa, modelo 1892, deixada para trás por um carteiro cansado.

Barnaby aproximou-se com a varinha em punho, farejando o ar como um testrálio diante de uma carcaça desconhecida.

— Uma tolice mecânica — murmurou ele, cutucando o pedal com a ponta da bota. — Sem asas, sem runas de levitação, sem um pingo de essência de mandrágora. Apenas graxa e metal sem rumo.

            Mas a curiosidade, essa falha que acomete tanto os tolos quanto os grandes arquimagos, falou mais alto. Barnaby decidiu que desmancharia a traquitana para usar as engrenagens em seus caldeirões. Montou a bicicleta de qualquer maneira, equilibrando-a precariamente, e apontou a varinha para a corrente, pretendendo enfeitiçá-la para que flutuasse até seu laboratório.

Porém, um espirro intempestivo — causado por um pólen alérgico que flutuava dos arbustos — fez com que sua varinha espirrasse faíscas rubras diretamente sobre o selim.

A bicicleta não flutuou. Ela estremeceu. Um som metálico, agudo e estridente ecoou pela campina, como o ganido de um pelúcio zangado. As rodas giraram sozinhas com uma velocidade furiosa, e o guidão saltou nas mãos de Barnaby, torcendo-se como uma cobra assustada. Antes que o bruxo pudesse proferir um contra-feitiço, a engenhoca disparou ladeira abaixo, levando o velho bruxo agarrado a ela como um carrapato em um hipogrifo desgovernado.

— Parar! — gritou Barnaby, o vento arrancando as fitas de sua barba. — Imobilulus! Arresto Momentum!

        Os feitiços saltavam da varinha, mas a bicicleta, infundida com a energia caótica da magia acidental e a obstinação mecânica dos trouxas, parecia imune à alta magia. Ela não obedecia às leis da física nem às regras da feitiçaria. Subiu morros íngremes sem perder o fôlego, cruzou riachos saltando de pedra em pedra como um sapo de chumbo, e ziguezagueou por entre o rebanho de ovelhas mágicas de um vizinho, que espalharam lã prateada por todo o campo.

Enquanto voava pelo ar em curvas impossíveis, Barnaby percebeu algo extraordinário. A vassoura exigia foco mental, equilíbrio refinado e uma certa graça aérea que ele nunca tivera. Mas a bicicleta... a bicicleta exigia ritmo. Exigia que ele sincronizasse o balanço de suas pernas envelhecidas com o girar implacável das rodas.

Sem perceber, o bruxo começou a rir. Uma risada rouca e estrondosa que há décadas não escapava de seu peito. Esqueceu a dignidade de sua túnica rasgada e o medo de se espatifar contra um carvalho centenário. Ele impulsionou os pés nos pedais de ferro, sentindo a queimação nas articulações, uma dor perfeitamente humana e terrivelmente viva que nenhuma poção de cura conseguia imitar.

        Após dar sete voltas completas em torno do monte mais alto de Yorkshire, a bicicleta finalmente desacelerou por si mesma, parando exatamente no mesmo lugar onde havia sido encontrada, diante da cerca de Barnaby.

O bruxo desceu cambaleando, as pernas trêmulas, o chapéu pontudo torto na orelha e o rosto corado. A corrente fumegava levemente, e os pneus estavam gastos, mas a engenhoca repousava em silêncio, como se nada tivesse acontecido.

        Barnaby Gasket passou os dias seguintes trancado em sua oficina. Não para desmontar a bicicleta, mas para estudá-la. Diz a lenda que ele nunca mais voltou a usar sua vassoura para pequenas viagens, e que, nas noites de lua cheia, os moradores de Little Snoring podiam ver a silhueta de um velho bruxo de barbas amarradas pedalando furiosamente pelos campos, rindo para as estrelas, tendo descoberto que a verdadeira magia, às vezes, precisa apenas de um empurrãozinho humano

O Bruxo e o Burro

 Era uma vez, na rua Beco, em Paris, um bruxo chamado Aristide que não sabia fazer feitiçaria nenhuma, mas tinha um diploma em filosofia barata e um burro cinzento que havia lido a Bíblia inteira só para poder discutir com o dono.

— Aristide — disse o burro, balançando as orelhas compridas —, você insiste em tentar transformar este tijolo em ouro, mas esquece que o ouro é uma invenção de banqueiros sem imaginação. O verdadeiro mistério está no feno.

O bruxo franziu a testa, ajeitou a túnica de estopa que fedia a poeira e respondeu:

— Cale a boca, animal! Você só pensa em capim porque seu povo nunca soube lidar com a metafísica da transcendência!

— Meu povo? — retrucou o quadrúpede, cruzando as patas dianteiras com um ar de superioridade acadêmica. — Sou um burro universal. Não tenho pátria, não tenho Torá, não tenho dogma. Apenas mastigo e raciocino, duas atividades que você abomina em prol da sua pequena teologia de calçada.

  Nesse exato momento, bateu à porta uma velha bruxa caolha, vestida com trapos pretos e carregando um cesto cheio de maçãs podres. Era a vizinha do terceiro andar, especializada em pragas domésticas e panfletos conspiratórios.

— Bom dia, Aristide! Trago novidades terríveis — anunciou ela, sentando-se sem ser convidada. — Descobri que o padeiro da esquina é descendente de um clã milenar de gigantes sumérios que controlam o preço da farinha através de redes cabalísticas invisíveis!

— Eu sabia! — gritou o bruxo, dando um salto que derrubou sua varinha de condão feita de cabo de vassoura. — Tudo está conectado! Os sumérios, os profetas, o sistema financeiro internacional e o fato de que meu café com leite sempre vem frio! Precisamos escrever um manifesto de setecentas páginas imediatamente!

O burro soltou um suspiro profundo, daqueles que fazem tremer as paredes de gesso podre, e abanou o rabo para afastar uma mosca teimosa.

— Vocês dois sofrem da mesma doença — murmurou o animal, fechando os olhos com tédio. — Inventam inimigos colossais porque têm medo do vazio do próprio cérebro. O bruxo culpa os deuses antigos e os escribas; a bruxa culpa o padeiro e a geometria sagrada. No fim das contas, nenhum de vocês sabe fazer um feitiço decente para espantar as moscas, mas adoram discursar sobre a ordem cósmica.

Aristide olhou para o burro, depois para a bruxa caolha, e os dois concordaram num ponto raro:

— Cale a boca, burro insolente! Você não entende nada de geopolítica mística!

    E o burro, bocejando, voltou a mastigar o capim, pensando consigo mesmo que, entre deuses, bruxos e profetas, o único ser realmente lúcido em Paris era aquele que contentava-se em carregar sacas de batatas sem precisar explicar a origem do universo.

A lenda do Primeiro e Nefastus

 

            Nas altas eras antes de o tempo contar os dias pelos ciclos do sol, nos salões incriados onde a luz tece o próprio tecido do ser, habitava aquele a quem os antigos chamavam de o Primeiro. Seu trono era forjado do mais puro ouro que jamais conheceu escória, e sobre sua fronte repousava uma coroa de fogo reluzente, viva e inextinguível. Em suas mãos, que detinham o peso e a medida dos mundos, ele guardava uma espada de chamas azuis, cortante como a verdade, e um escudo de prata polida onde dormiam cinco estrelas imortais.

            Na língua dos elfos, que guarda o eco dos primeiros pensamentos, ele era nomeado apenas como o Outro; pois sua majestade era vasta demais para caber nos nomes comuns, e o pavor reverente impedia que seus lábios pronunciassem sua verdadeira designação. Ele era o artífice, o Senhor da Chama Imperecível, aquele cuja vontade gerou a dança dos planetas e a tapeçaria das constelações que pontilham a vastidão da noite.

            Mas a harmonia da criação jamais esteve isolada da sombra. Nas profundezas onde o silêncio     devora as formas, habitava seu irmão, Nefastus — um espírito de terror incomensurável, cuja essência se enroscava na penumbra em uma imensa forma de aranha, coroada por uma face humana de fria e implacável malevolência. Entre os dois estendia-se um abismo intransponível de propósitos. Enquanto o Primeiro desejava que o ser florescesse e cantasse em louvor à luz, Nefastus buscava desfazer os fios, corromper a tapeçaria e arrastar o cosmos de volta à estéril geometria do nada. Houve incontáveis batalhas entre a espada azul e as garras do vazio. O Primeiro, em sua longanimidade, tentou por eras erguer barreiras contra o ódio de seu irmão. Contudo, em uma hora de profunda e terrível reviravolta, a traição e a astúcia de Nefastus prevaleceram, lançando o criador das estrelas nas profundezas vertiginosas do Poço do Vazio.

                Apesar da queda, o espírito do Outro não conheceu a morte, pois o que nasce da chama pura não pode ser extinto, apenas ocultado. E das profundezas escuras, ergueu-se novamente a promessa da aurora, enquanto Nefastus, preso à sua própria fome insaciável, jurava vingança eterna, sabendo que, enquanto houvesse uma única estrela a brilhar no céu, o seu domínio estaria incompleto.

 

Nas altas torres onde a luz habita

Nas altas torres onde a luz habita,

Reina o Primeiro, cuja glória é infinita.

De ouro é seu trono, de chamas sua coroa,

E a sua mão o fogo azul entoa.

Com o escudo de prata e cinco estrelas puras,

Ele teceu do cosmo as formosuras.

Os elfos, temerosos da grandeza,

Chamavam-no "O Outro", guardando a nobreza

Do nome sagrado que a língua não ousa,

Pois a sua força é vasta e misteriosa.


Mas na penumbra onde o abismo se estende,

O irmão sombrio e terrível acende

O ódio profundo que a mente consome:

Nefastus, a aranha de humano nome.

Do vazio frio, onde o nada impera,

Ele ataca a obra que o Primeiro gera.

Planetas e sóis, na dança criada,

Sofrem a ira da besta alada.


Ao fundo do poço o Arcano foi levado,

Mas jura vingança o irmão revoltado.

A luz e a treva em eterno combate,

Até que o tempo o ciclo desate,

E a graça do alto desça e encerre

A antiga dor desta infinda guerra.




colagem cubista

 nos lirios

nos tons

a tinta

a tela só

júbilo solitário

 lírio da tua

brancura: lua

                                homem nu.

Evocação

 boca que

não veio

          nem sol nem lua

apenas

  os 

prédios 

               o vazio!

A tenda

 Na ilha

       só o sol

        se ergue

tocha.

Pureza

 —Voz branca

luz dramática

de estrelas frias

a estética espiritual

do acaso

gemido

a luz suprema, eterna e bela.

Perfeição

 Alvura imaculada,

livre do real,

alvura do amor —

eterna, viva e

imaterial.

necessidade existencial

 



diante das grandes catástrofes do século XX

traumas extremos desse  tempo

a retórica

Destino

 Na solidão

o corpo nu

em nudeza de sombra

          arde beleza.

Porto do céu

         Na manhã

                  a

solida luz

estrelas

               brilham

    fogo.

A apologia do volume

Os anos oitenta desceram do sótão

com seus sprays de laca e promessas de altura.

Todo mundo quer cachos volumosos,

nuvens rebeldes desafiando a gravidade e o espelho,

como se o cabelo pudesse conter

o excesso de alma que a época reclama.

E a cabeça cresce, espicha, espraia-se no vento,

uma floresta emaranhada de molas e lembranças.

O espelho reflete um leão doméstico,

alguém que tenta ocupar mais espaço no mundo

sacudindo os caracóis contra o teto baixo dos dias.


Mas por dentro da juba, o pensamento continua liso,

prudente e reto, buscando o rumo de casa

enquanto os cachos armam sua revolução de mentira

na esquina de qualquer espelho moderno.

As asas de zumbido e os passos no mapa

 As asas de zumbido e os passos no mapa

A água subiu sem pedir licença às montanhas.

O nepal, de pedra e lama, suspende drones no ar

para que o arroz e o remédio voem

onde o pé do homem já não consegue pisar.

Pequenas aeronaves de zumbido mecânico

tentam remendar o fio partido da solidariedade.

Enquanto isso, noutra esquina do globo,

o mapa se mexe com passos de diplomacia.

Pisa firme,

aperta a mão de mais um aliado na mira

da grande engrenagem que nunca descansa.

E a gente fica aqui, lendo manchetes de jornal,

entre o zumbido do drone na encosta isolada

e a comitiva que cruza a fronteira oficial,

tentando entender para onde vai este mundo

que transborda em tragédia e protocolo.

Desde menino



Desde menino, eu sabia

que seria artista.

Não havia escolha no horizonte da Bahia,

nem espaço para dúvidas nos bolsos rasos das minhas calças.

O mundo exigia contas, ofícios e retidão,

mas a infância já conhecia as canções.

Ao longo dessas décadas  de silêncios e palcos,

de obras originais ou colaborações levadas pelo vento 

ele se distinguiu (uma palavra solene, de jornal)

como uma das figuras mais prolíficas e influentes

de sua geração inesgotável.

E o tempo passou pesado e leve,

como o tempo passa sobre a praça da cidade e o disco.

O menino continua a cantar o risco,

enquanto a pátria, atônita e distraída,

testemunha a presença duradoura de sua vida.

Errante paisagem

 galho grosso

sobre a árvore

do amor


reluzente mar

seios loiros


cabelos a brilhar

do amar!

Mariposa branca

             Mariposa branca,

luz azulada

do corpo concreto

cidade fria,

frio que passa

vento

janela

sem sol.

A grande borboleta negra

 Borboleta negra

                nádega ébana

                de suores

                        lágrimas

                                            luar.

Amanhecer

 passado

        gerações

        dispersas

entrevista         o

silêncio         da

                vida.

Ilhas sem sol - faz noite

 Estou em silêncio.

Quem dera falar,

amar.

Só há trevas lá fora,

porque a noite entrou pela janela.

Não há estrelas para iluminar o rosto dos homens.

Sou um sorriso no escuro da vida.

Por fim, vou seguindo essa música.

Calado.

Estou em silêncio.

Quem dera falar,

amar.

Na praia em silêncio

 Na solidão da vida

podemos por fim

entender a tristeza

do mar.

Ainda me emociona

 Em linha recta

tracei minha vida.

Depois veio essa

dana e desfez com

alegria todos os meus

planos. 

Me coloquei a chorar,

ela ria. Me pús a rir,

ela partiu todos que

eu bem queria.

Ah, vida,  então distraísse

meus planos,

me lanças-te na memória esquecida.

Por fim decidi relaxar.

Vou fingir que não vivo.

Quem sabe a vida me surpreenda!

Poema de um anjo recto

 Ontem morri.

O que aconteceu

com o meu corpo

se abri os olhos e

ei eu de novo na

cama.

Diante do espelho.

Era vida? E esse pássaro piando, piando na janela.

Deus que me livre!

Deve existir nisso tudo algum sentido.

Vou me sentar diante da cadeira,

vou fazer novos versos e escondê-los.

Ontem morri.

Morrerei hoje?

O Fluxo Niilista

 Fala     de mim

amor.

Para que         me esqueçam.

        Sempre.


Mas     fale sua voz.

Apenas         ela.

Cachorro romântico

 Cachorro, uiva

para a lua,

como que se

lobo lembra-se.


Ah, lembranças de amores, foices,

que se foram!

não há um sol de ouro lá fora

 Passado e presente.

Afora isso, nada existe.

Apenas eu e você.

Separados, dois corpos.

Testamento Lírico

 Morri,

não me enterraram

ainda

porque

se a minha voz já não é mais bela, nem lírica.

Vou andar pelos bosques,

fauno sem ressurreição.

Beijos secretos me acompanharam.

Pelos montes, ou até mesmo, pelos prados.

Além das terras agrestes,

entre o destino e o delírio.

Morri, serei tumba, serei raíz de carvalho.

mesmo na eternidade

 Eras bonita

linda

o que acabou

para onde foi sua beleza


a neve fria passou

entrou o rio das águas

nada claras


o cinzento do dia

cobriu sua boca seu rosto tuas nádegas imensas

e hoje em dia,

tu e eu somos poeira

no mar.

Poema artesanal

 Que grande

a mangueira

do mágico

da mágica

entre os pontos

as pontes

entre os sonhos

os sonâmbulos.

Pequena mariposa

 Pequena mariposa

pousa

em folhas verdes

feliz


de         poléns novos.

Tiradinhas

 Trabalho e Desemprego

O desemprego no Brasil está tão criativo que a carteira de trabalho virou item de museu, daquelas coisas que a gente guarda ao lado do disco de vinil e do abridor de garrafa de querosene.

Mandar currículo hoje em dia é um ato de fé tão profundo que deveria vir com direito a indulgência plenária e desconto no caixão.


Política e Dinheiro na Cueca

O político brasileiro rouba tanto que a cueca dele já não serve mais para guardar calcinha, virou um cofre blindado com direito a fundo de investimento e auditoria da Polícia Federal.

A gente elege o presidente com a esperança de ver um estadista e acaba assistindo a um mágico de auditório que faz o PIB sumir e o dinheiro aparecer nos lugares mais íntimos da República.


Televisão e Burrice

A televisão aberta conseguiu atingir um grau de burrice tão transcendental que até o controle remoto parece querer se suicidar jogando-se da mesa de centro.

Antigamente a televisão educava, informava e divertia; hoje em dia, ela é um eletrodoméstico especializado em lobotomia em horário nobre.


Judaísmo e a Vida

Ser judeu é pertencer a um povo que atravessou milênios de perseguição, pogroms e diásporas só para discutir na mesa de jantar se o caldo de galinha da vovó estava ralo ou se o neto devia ter casado com a médica.

A vida é um eterno balanço contábil judaico: a gente passa noventa anos pagando juros de aflição para receber um capital de sabedoria que não serve para comprar nem um quilo de matzá na promoção.

Tiradinhas

 O brasileiro só não ganha o Prêmio Nobel de Física porque prefere inventar uma nova modalidade de imposto antes do café da manhã.

Casamento é aquela instituição maravilhosa onde duas pessoas se unem para enfrentar problemas que, se estivessem solteiras, jamais teriam.

A sinceridade é uma virtude tão rara que, quando alguém decide usá-la com você, a primeira vontade que dá é chamar a polícia.

Viver no Brasil exige uma flexibilidade mental tão grande que o ioga deveria ser substituído por uma declaração de Imposto de Renda.

O otimista é aquele que entra em uma barbearia sem cabelo e sai convencido de que economizou no shampoo.

Dinheiro não traz felicidade, mas a falta dele consegue proporcionar uma tristeza tão profunda que o dicionário deveria ter fotos ao lado da palavra.

Experiência é o nome elegante que a gente dá para todos os erros estúpidos que cometemos antes dos trinta anos.

A única coisa que cresce mais rápido do que a conta do restaurante é a nossa capacidade de inventar desculpas para não voltar lá.

O Casamento


                Casamento é uma instituição tão sólida que até hoje ninguém conseguiu descobrir quem foi o primeiro infeliz que teve a coragem de inventá-la. Noivo, antes de assinar o papel, é um homem livre: anda com a camisa para fora das calças, bebe cerveja direto do gargalo e acha que teto é apenas aquilo que impede a chuva de cair na cabeça. Depois do "sim", o homem descobre que o matrimônio é uma sociedade em que um dos sócios entra com o capital, o outro com a paciência, e ambos com a certeza de que a contabilidade vai dar prejuízo. A noiva passa os primeiros cinco anos tentando mudar os defeitos do marido; nos trinta anos seguintes, gasta o resto das energias explicando às amigas por que ele continua exatamente igual. O segredo de um casamento duradouro não é o amor eterno, que acaba na primeira fatura do cartão de crédito, mas sim a arte refinada da surdez seletiva. Quando a mulher diz que o jantar está na mesa, o marido entende que é hora de desligar a televisão. Quando o marido diz que vai apenas dar uma voltinha rápida na esquina, a mulher já sabe que ele só volta no próximo milênio. E o mais curioso é que, no fim das contas, continuam todos firmes e fortes, celebrando Bodas de Ouro com a mesma cara de quem está cumprindo pena em regime fechado, mas com direito a bolo no domingo.

Escuta, Carlos!

 — Você nunca me ouve, Carlos. Nunca.


— Eu estou ouvindo, Clara. Com um ouvido na tua reclamação e o outro na prorrogação do jogo, mas estou.


— Viu? É exatamente isso! Para você, o drama da minha existência e um gol de cruzamento na área têm o mesmo peso.


— Convenhamos que o cruzamento foi bem ensaiado.


— Vai à merda, Carlos! Eu estou falando de projeto de vida, de comunhão de almas, de a gente parar de fingir que esse namoro tem futuro, e você me vem com tática de chuveirinho!


— Ora, Clara, não complica. A gente se gosta, sai para comer pizza no sábado, discute o relacionamento na terça. É o ciclo natural da vida moderna. Para que estragar com essa urgência toda?


— Porque eu não sou um plano de previdência privada para render juros a longo prazo! Eu quero paixão, quero fogo, quero um homem que me olhe e perca o rumo de casa!


— Perder o rumo de casa nessa zona norte às dez da noite é pedir para ser assaltado, Clara. Seja realista.


— Terminou?


— Depende. O juiz apitou o fim do primeiro tempo ou ainda tem acréscimo?

Bokinha

 


Bokinha fala - quadrinhos

 


Expressão sal

 


Estudo de pássaro

 


Camarada Picasso o revolucionário da Pintura

 


Dog

 


Construção cubista: cachorro!

 


El perro

 


Cachorro

 


Construção geométrica

 


George Braque homenagem justa

 


Composição infantil numero 1

 


Rosto tribal

 


um poema

 sobre as ilhas

e as areias

talhei um poema


só um poema

de mar vento e tristeza!




Composição velho com violão

 


Picasso - o espanhol

 


Fragmentação- a realidade cubista

 


Composição: violão!

 


Violão

 


Colagem cubista

 


O sorriso

 


Velhas formas

Este resumo não está disponível. Clique aqui para ver a postagem.

Figura

 


O Homem surrealista

 


Feliz Happy

 


Experimentação

 

Experimenting with the beautiful Shemale

Interpretação mística

 


Modelos nuas

 



Invocação tribal n. 2

 


Invocação tribal n.1

 


Composição cubista

Este resumo não está disponível. Clique aqui para ver a postagem.

Nudez

 


Cena erótica

 


Picasso- estudo

 


Menina desenhando

 


Composição cubista

 


Máscaras antigas


 











terça-feira, 8 de setembro de 2026

a ostra e o dia

 melodia

do

mel do 

corpo


nasce o sol

nasce o mar


salgado

e         salgada

é a melodia


melodia do tempo!

do tempo que passa...

Nascem as flores da primavera

         Nascem as

flores da

primavera

e o cheiro

do perfume

    do sol


sobre o

        sal do mar

venta     as janelas

dos navios

afogados!

força monumental

 Mariposas

negras de

culos imensos

e doces

passam e


dançam

pela memória

da aurora 

feliz!

A menina e a bruxa - conto fantástico

 

DIÁRIO DE TLÖN 

Suplemento de Arquitetura, Espectros e Labirintos

Menina refuta o tempo cíclico e impede furto ontológico na residência dos Álvares

BUENOS AIRES (Via Campinas) — Na confluência inexata entre as sombras do corredor oeste e o esquecimento absoluto, ergue-se o casarão da senhora Cassandra. Foi neste endereço que, no crepúsculo da última quinta-feira, o fluxo linear do tempo sofreu uma ameaça de inversão. O boletim registrado na Sociedade de Estudos Metafísicos de Campinas relata a tentativa frustrada de um delito paradoxal: o roubo da juventude alheia por um agente há muito falecido.

        A autora da infração era Ofélia, referida nos alfarrábios locais como a "bruxa pálida". Os registros cartoriais atestam, com a ilusória precisão típica dos documentos cívicos, que Ofélia faleceu por asfixia mística naquele mesmo casarão há exatas cinco décadas. Contudo, no universo das casas antigas, a morte não é um destino, mas um erro de gramática. Ofélia não havia partido; convertera-se em um artifício da própria arquitetura, aguardando pacientemente nos ângulos cegos dos espelhos. Seu objetivo era geométrico e perverso: transmutar sua estática palidez cadavérica na vitalidade de sua hospedeira, a tia Cassandra, através de um axioma de troca equivalente.

        O processo de usurpação já se iniciara quando a noite caiu. Observadores do invisível relatam que a velhice de Cassandra migrava, gota a gota, para a superfície do grande espelho prateado da sala de estar, enquanto a face de Ofélia, emergindo do outro lado do azougue, recuperava o rubor de 1976. A imortalidade e a juventude, provou o evento, são apenas uma questão de contabilidade furtiva entre dois mundos.

    O crime cósmico só não se consumou graças à intervenção da menina Síria. Alheia à complexidade erudita dos labirintos temporais, a criança valeu-se de uma refutação violenta e irrefutável. Munida da pesada Enciclopédia Britânica (Volume M, Mirrors to Myths), Síria atirou o tomo contra o cristal no exato momento em que as almas se cruzavam no meridiano do espelho. Ao fragmentar a superfície, fragmentou o próprio tempo.

            Os peritos que recolheram os cacos confirmaram que o feitiço foi cancelado por um paradoxo: a bruxa pálida foi multiplicada e reduzida a milhares de réplicas minúsculas e inofensivas, agora presas para sempre nos estilhaços espalhados pelo tapete persa. Cassandra manteve suas rugas intactas, declarando aos repórteres que a eternidade lhe parecia, afinal, um conceito excessivamente longo e cansativo. Síria, por sua vez, retornou aos seus cadernos de matemática, perfeitamente indiferente ao fato de ter assassinado a morte.

O Gatohomem de Campinas - conto fántastico

 

CORREIO DE CAMPINAS - Caderno de Ocorrências Cotidianas e Inexplicáveis

Prefeitura suspende buscas por bípede felino; Zoonoses alega falta de formulários para entidades cósmicas

CAMPINAS, SP —Na madrugada desta terça-feira, a Guarda Municipal encerrou oficialmente o inquérito sobre o chamado "Gatohomem do Largo do Rosário". Segundo o boletim de ocorrência, preenchido com caligrafia trêmula e rasurado três vezes pelo oficial de plantão, as buscas foram interrompidas por absoluta inadequação burocrática: o sistema municipal não possui protocolo para a captura de abominações indescritíveis.

As aparições começaram na última sexta-feira. Diversos transeuntes relataram a presença de um felino de dois metros de altura, caminhando ereto sobre as patas traseiras pelas calçadas de paralelepípedo do centro. A criatura, descrita como portadora de uma pelagem negra que parecia absorver a luz dos postes e olhos amarelos que refletiam a fria e ancestral indiferença do cosmos, tem causado transtornos leves ao comércio noturno.

O Sr. Lucrécio, jornaleiro aposentado, foi a principal testemunha. "Ele não miou nem rosnou", declarou o idoso, que desde então se recusa a olhar para o céu noturno. "A besta parou ao meu lado no ponto de ônibus da Avenida Francisco Glicério. Com as garras pingando um lodo de eras mortas, ele ajeitou a gola de um sobretudo invisível e reclamou, em um dialeto gutural e pré-humano, sobre a demora da linha 381."

Agentes do Departamento de Zoonoses tentaram intervir na noite de domingo, munidos de redes padrão e petiscos de fígado. No entanto, ao ser cercada nos fundos do Palácio da Justiça, a criatura simplesmente rejeitou as leis da física tradicional. Testemunhas afirmam que o monstro dobrou seu corpo humanoide em ângulos não-euclidianos, achatando-se em uma geometria blasfema antes de escorrer, como uma sombra espessa, para dentro das grades de um bueiro.

A Prefeitura emitiu uma circular interna tranquilizando a população. O texto afirma que, embora a criatura exale uma aura de loucura e desespero primordial, ela aparentemente não é portadora do vírus da raiva. Pede-se apenas aos munícipes que mantenham as lixeiras devidamente trancadas e evitem oferecer sardinhas a divindades esquecidas pela razão. O caso foi arquivado na gaveta de assuntos pendentes, aguardando um carimbo da vigilância sanitária.

Voltando

 A flor e as estrelas estão desabrochando,

e lá fora a chuva fria cai,

gotas, meu caro francis ponge,

se eu pudesse falar francês arcaico, eu lhe diria,

alegremente, mon ami. Sonhemos com símbolos verdadeiros,

ocultos e figurativos.

domingo, 6 de setembro de 2026

O destino

 sobre a luz das agulhas

ruge o diamante nas mãos

do velho andarilho


o frio vai formando um

poema de metáforas longas,

a neve é a água gelada


por fim desce o pântano

e lá pelas névoas agitadas

uma bola de futebol desce.

Sentimental

 Morreu,

agora chegou as estrelas em passos de luz,

ouçamos a oratória antiga delas 

entre neves, pessoas vão passando,

o frio é um beijo que passou dentro

dessa tumba cheia de ratos brancos.

Roçado da neve

 quem disse?

se foi não é mesmo

era algo

ou um momento qualquer


fogo da poesia

fogo da vida

vamos

caminhemos de novo


chorando pelo roçado da neve

nas memórias da vida

 dorme o dia

em janelas exaustas

e o nosso rosto

esse rio imperecivel

se desfaz nas memórias

da vida

O urso

 tu

        dorme

eu         sonho


    fora

o vento         bate na janela


frio frio

como a água         do rio.

Crônica

 escrever leva tempo


a memória pousa

sobre o chão do papel

e as letras , asas feitas, voam

transparentes


até lá

o dia surge

a noite vem

salomão sonha seus causos

e então


o tempo que passou

passou...


ah vida é tão mística...

Poesia sobre a felicidade

 o dia é triste

a vida é triste

o destino     é triste


afora isso

o amor (quando não é triste)

é tão feliz!

Passou - maktub

 Passou o tempo

era o     vento

passou a luz

era o sol

chegou a noite

eram os beijos


as janelas fechadas


o frio         belo o frio

Sobre o papel

 sobre o         papel

a luz d' olhar         o brilho

sobre         o papel

a escrita a         areia o sal o sol.

O mar

 o mar

é um grão

um grão de sol     sal e     vento

ali o paraíso

repousa

triste

pálido

  e

            só.

Pluvia

 névoas

           brancas

sobre as     nuvens

pretas do dia


chove

algum         lugar

            poesia

poesia

Quadrinho

 


Quadrinho comédia em p[é

 


Tirinha em quadrinho

 


Pode esperar - conto

     O garoto ruivo, sardas no nariz e o pescoço compridão, subiu a escada do cortiço na Rua Treze de Maio com o coração batendo na garganta. Ela abriu a porta de pijama de cetim rasgado, o corpo retinto brilhando de suor no calor abafado de Campinas.

— Entra, cenourinha. Não repara a bagunça.

        A travesti tirou o pijama ali mesmo, nua da cabeça aos pés, uma estátua de ébano e carne firme no meio do quarto mofado. Cheirava a sabonete baratinho e jasmim de quintal. O rapaz engoliu em seco, as mãos trêmulas desabotoando a calça jeans desbotada. Ela deitou na cama de armação de ferro, abriu as pernas grossas e puxou ele pelo braço, a voz rouca e direta:

— Deixa de frescura e enfia tudo. Sem pressa, mas com vontade.

        Ele obedeceu, tonto com o cheiro e com o abafado da noite. Foi um tranco seco, o corpo dela arqueando, unhas compridas cravando nas costas brancas dele, arranhando a pele até arder. O quarto virou um estrondo de molas velhas e respirações cortadas. Ela ganiu um palavrão grosso no auge, o corpo convulsionando num gozo violento que apertou ele por dentro. O ruivo perdeu o prumo logo em seguida, desabando sobre o peito dela num suspiro longo.

        Ficaram deitados ali no colchão sem lençol, o ventilador barulhento jogando bafo quente. Ela afagou o cabelo cor de fogo dele com carinho de mãe brava.

— Você volta semana que vem? — perguntou ela, o sorriso branco cortando o rosto escuro.

    O rapaz levantou o queixo, ajeitou a calça e sorriu de volta, os olhos brilhando no escuro.

— Volto sim. Pode esperar.