quarta-feira, 27 de agosto de 2025

O Anseio

-Ah, ser judeu!

Não basta gostar de bagels,

nem rir das piadas do tio rabugento

nem chorar com a trilha sonora de Spielberg.

Segundo eles,

a regra é simples:

nascer de mãe judia.

Se for do pai, desculpe,

você é… nada.

Um impostor cósmico

no tribunal celestial da pureza genética.

Então fico imaginando:

e se minha mãe fosse uma canadense amante de panquecas?

E meu pai, um rabino fanático que só queria um filho para contar piadas ruins?

Ah, sim, não posso ser judeu.

E o bar mitzvah? Só um show de talentos frustrado.

Mas o que é ser judeu afinal?

É a identidade? A religião?

Ou só uma desculpa para reclamar da vida,

do metrô lotado, do vizinho fofoqueiro, do mundo inteiro?

Eles dizem: “Você precisa nascer!”

Eu digo: “Olha, nasci, chamei a atenção,

e mesmo assim, aqui estou,

com meus anseios, minhas dúvidas, minha culpa gratuita,

pronto para discutir filosofia em qualquer café que me deixar entrar.”

Ah, a linhagem!

Se isso determina quem você é,

então eu prefiro meu senso de humor.

Mais útil em qualquer festa,

mais eficaz contra a angústia da vida,

e infinitamente mais divertido do que seguir regras antigas

que nem Deus lembra direito.

O anseio?

Ah, meu amigo, é ser judeu à minha maneira:

irônico, nervoso, neurótico,

e com uma piada pronta para cada absurdo do mundo.



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