Em Varsóvia,
onde o frio engole as calçadas e o silêncio se espicha entre os prédios,
eu caminho pelas ruas como sombra própria.
Um menino me segue nos espelhos da memória:
tem o rosto de Isaac,
filho de rabino, olhos fundos como páginas do Talmude.
Ele lê os sinais do mundo com dedos nervosos,
descobre o sexo,
seus mistérios,
os corpos que trepidam e mentem,
a pele que queima e confunde.
O Talmude nos olha do alto,
tenso, rígido,
como se julgasse nossas mãos sujas de desejo.
Aprender a palavra proibida
é caminhar sobre vidro:
cada passo corta, cada segredo inflama.
Varsóvia respira junto,
os postes suam sombra,
os becos guardam murmúrios de outrora,
eu sigo sendo o narrador e o menino,
o último que ousa atravessar o Talmude e o corpo,
o último que sente o anseio e a dor,
o último que sabe que viver é ler e tocar
e que o mundo, sempre cruel, só se entrega a quem ousa sujar-se de si mesmo.
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