quarta-feira, 27 de agosto de 2025

O Último

Em Varsóvia,

onde o frio engole as calçadas e o silêncio se espicha entre os prédios,

eu caminho pelas ruas como sombra própria.


Um menino me segue nos espelhos da memória:

tem o rosto de Isaac,

filho de rabino, olhos fundos como páginas do Talmude.


Ele lê os sinais do mundo com dedos nervosos,

descobre o sexo,

seus mistérios,

os corpos que trepidam e mentem,

a pele que queima e confunde.


O Talmude nos olha do alto,

tenso, rígido,

como se julgasse nossas mãos sujas de desejo.

Aprender a palavra proibida

é caminhar sobre vidro:

cada passo corta, cada segredo inflama.


Varsóvia respira junto,

os postes suam sombra,

os becos guardam murmúrios de outrora,

eu sigo sendo o narrador e o menino,

o último que ousa atravessar o Talmude e o corpo,

o último que sente o anseio e a dor,

o último que sabe que viver é ler e tocar

e que o mundo, sempre cruel, só se entrega a quem ousa sujar-se de si mesmo.



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