terça-feira, 26 de maio de 2026
O Falso Esculápio do Alheio
Do alto Olimpo, em berço de brocado,
Julga o mundo com voz de orador polido,
Jamais sentiu o estômago roído,
Nem do prato vazio foi privado.
Do Bolsa, o auxílio — pão desesperado —
Critica em tom de zelo, ora esquecido
Que a fome, em seu tropel descomedido,
Não se cura com o brilho do Estado.
Aponta o dedo ao pobre, em seu dilema,
Como quem prescreve a cura da anemia
A quem não tem direito ao próprio tema.
É fácil, ó paladino, à luz do dia,
Condenar o sustento de um sistema,
Quando a mesa farta é sua geografia.
O Prisma Keynesiano em um Mundo em Transição: Reflexões sobre a Posição Brasileira
O Prisma Keynesiano em um Mundo em Transição: Reflexões sobre a Posição
Brasileira
Ao contemplar a trajetória de Janet Yellen e a sua
ortodoxia keynesiana, marcada por uma fé inabalável na correção estatal das
falhas de mercado e no estímulo como motor de crescimento, não posso deixar de
traçar um paralelo com o cenário brasileiro. O Brasil, na sua complexa dança de
desenvolvimento e vulnerabilidade, encontra-se hoje como um espelho das tensões
globais que a filosofia econômica de Yellen procura administrar.
Yellen defende que o Estado deve intervir quando os mercados falham ou
quando a desigualdade ameaça a coesão social. No Brasil, essa premissa é um
pilar histórico, frequentemente testado pelos limites da capacidade fiscal. O
nosso desafio não reside na ausência de vontade de intervir, mas na arquitetura
dessa intervenção. Se o keynesianismo pressupõe um Estado capaz de agir com
precisão para corrigir desequilíbrios, o cenário brasileiro nos obriga a
perguntar: o Estado está sendo um catalisador de crescimento ou um obstáculo à
inovação que o mercado, por si só, poderia gerar?
A visão de Wall Street sobre Yellen — de que ela
buscaria o crescimento através de políticas expansionistas, contudo, limitadas
pelo impasse político — é uma caricatura que se aplica com precisão cirúrgica
ao Brasil. O embate entre a necessidade de estímulo econômico e o rigor da
disciplina fiscal não é apenas técnico; é uma disputa de poder que
frequentemente trava a engrenagem nacional, deixando o País em um estado de "espera
contínua" por reformas que nunca se consolidam plenamente.
No contexto global, o Brasil tenta navegar como uma potência que ainda busca
o seu equilíbrio. Enquanto Yellen utiliza a sua influência para moldar uma
economia mundial ancorada no dólar e na regulação americana, o Brasil vê-se
pressionado a escolher entre a velha guarda das alianças comerciais e a nova
realidade multipolar.
O keynesianismo, quando aplicado em escala global, exige
uma coordenação que parece cada vez mais ausente. Quando potências como os
Estados Unidos decidem investir massivamente em seus próprios parques
industriais (em nome da segurança nacional), o Brasil corre o risco de ser
empurrado para a periferia, servindo como mero fornecedor de recursos brutos,
enquanto a tecnologia e o capital — os verdadeiros motores do desenvolvimento —
são concentrados no Norte global.
A lição que extraio da abordagem de Yellen, e que o Brasil deveria
considerar com urgência, é a seguinte: o Estado possui um dever inegável no
combate à pobreza, mas essa intervenção precisa ser sustentável. Não há
"estímulo" que sobreviva por muito tempo a um déficit de
credibilidade.
Se, como Yellen sugere, devemos ser capazes de
reconhecer quando os mercados falham, devemos ter, com igual humildade, a
coragem de reconhecer quando as nossas próprias políticas públicas fracassam
por excesso de ideologia e carência de pragmatismo. O Brasil não pode se dar ao
luxo de ser "keynesiano até a medula" se essa medula estiver
desprovida de uma estrutura produtiva robusta e de uma estabilidade fiscal
inegociável.
O futuro não premiará apenas aqueles que desejam
corrigir os mercados, mas aqueles que conseguirem criar as condições para que o
mercado, incentivado pelo Estado, seja capaz de gerar a riqueza necessária para
sustentar a justiça social que almejamos. Sem isso, corremos o risco de repetir
ciclos de crise, cada vez mais profundos, num mundo que não perdoa mais os
erros de cálculo das nações que ousam, mas que não se planejam.
A Arquitetura do Conflito: O Custo da Hegemonia em Tempos de Incerteza
A Arquitetura do Conflito: O Custo da Hegemonia em Tempos de Incerteza
Por Gabriel
de Athayde Macabeu Klein
A
história, tal como a física, é regida por leis de conservação. Em nossos
laboratórios em Los Alamos, aprendemos que a energia não pode ser criada ou
destruída, apenas transformada. Hoje, ao observar o tabuleiro geopolítico e as
declarações da Secretária do Tesouro, Janet Yellen, vejo um fenômeno análogo na
economia global: a tentativa de transmutar a capacidade industrial e o capital
financeiro em poder político e militar simultâneo em múltiplas frentes.
A
assertiva de Yellen de que os Estados Unidos possuem a robustez necessária para
sustentar, de forma concomitante, os esforços bélicos em Israel e na Ucrânia é
uma proposição que exige um escrutínio que vai além dos balanços contábeis. É,
em última análise, um teste de estresse sobre a própria definição de
"capacidade" em uma economia pós-globalização, caracterizada por
cadeias de suprimentos fragmentadas e uma inflação cujas cicatrizes ainda não
se fecharam.
Do ponto de vista puramente econômico, a capacidade de financiar conflitos de alta intensidade em dois teatros de operações distintos pressupõe uma elasticidade na produção de defesa que não se ajusta prontamente às flutuações da demanda. A economia de guerra moderna não é apenas uma questão de alocação orçamentária; é uma questão de infraestrutura produtiva. Quando o Tesouro afirma que "podemos e devemos" arcar com estes custos, ignora-se o custo de oportunidade inerente: o desvio de capital, talentos e matérias-primas que, de outra forma, seriam direcionados para a inovação tecnológica ou para a mitigação das vulnerabilidades estruturais domésticas.
O perigo
reside na ilusão da onipotência fiscal. Se a teoria econômica nos ensinou algo
através das grandes crises do século XX, é que a alavancagem excessiva — seja ela
militar ou financeira — atinge um ponto de inflexão onde os retornos
decrescentes se tornam catastróficos. O apoio simultâneo a Israel e à Ucrânia
não é apenas uma decisão de política externa; é um ato de engenharia
macroeconômica que coloca à prova a resiliência do dólar e a confiança dos
mercados na sustentabilidade da dívida americana.
Quanto à
advertência dirigida ao Irão, observo com uma inquietação familiar a crescente
dependência das sanções econômicas como o instrumento preferencial de coerção.
No campo da física, descobrimos que uma força desencadeada sem controle pode
alterar para sempre o ambiente ao seu redor. Ao declarar que "nada está
fora de questão" em termos de represálias, o Tesouro utiliza o sistema
financeiro global como uma extensão do arsenal militar.
Embora o
uso de sanções possa parecer uma alternativa mais "limpa" ao conflito
armado, ele atua, na prática, como uma erosão silenciosa do sistema financeiro
internacional que a própria América ajudou a construir. O isolamento de atores
estatais cria um incentivo poderoso para a criação de sistemas paralelos,
fragmentando a ordem econômica global. A história nos mostra que, ao tornar a
economia uma arma, arriscamos transformar a interdependência — que deveria ser
o maior garante da paz — em um foco de instabilidade permanente.
A responsabilidade daqueles que gerem as finanças de uma superpotência é comparável à responsabilidade dos físicos que compreendem as forças fundamentais da natureza: o conhecimento da nossa força não deve obscurecer o entendimento das consequências de sua aplicação.
Se os
Estados Unidos se comprometem a ser o fiador da ordem internacional através do
financiamento ininterrupto de múltiplos conflitos, devem fazê-lo com a
consciência de que a economia, assim como a matéria, possui limites de
saturação. A busca pela hegemonia, quando desenfreada, corre o risco de
consumir os próprios fundamentos — a estabilidade fiscal e a credibilidade
institucional — que lhe conferem autoridade. A pergunta que resta, e que espero
que os formuladores de políticas se façam com seriedade, é se este custo é
sustentável ou se estamos, inadvertidamente, iniciando uma reação em cadeia
cujas consequências finais ainda não podemos prever.
O autor é
um observador constante das interseções entre o poder, a tecnologia e as
fragilidades das civilizações.
segunda-feira, 25 de maio de 2026
domingo, 24 de maio de 2026
Estudo do Espaço Interno
A dor é um vetor que pressiona a viga mestra.
O homem está só no centro do seu módulo,
Entre o teto plano e o nível do solo,
Cubo de ar onde o silêncio se concentra.
As quatro paredes não respondem ao apelo.
A solidão é a ausência de luz zenital,
Um erro de cálculo no plano funcional,
Onde o cálculo falha e sobra o novelo.
O sol cumpre o seu ciclo de vinte e quatro horas
Mas o indivíduo permanece na sombra do pilar,
Medindo a distância entre o peito e as auroras.
O ângulo reto é a única salvação contra o caos:
Eis a mecânica do espírito a se reestruturar
Para erguer a ordem sobre os escombros maus.
Ângulo Agudo
Um pedaço de gelo caiu dentro da boca
O dia não tem pressa de passar
Através da vidraça o céu está cinzento e duro
Há um prego de ferro batendo na gengiva
O vento dobra a esquina da rua
E dobra também o nervo
Nenhum som sai da lâmpada acesa
A dor
é uma linha reta
que atravessa o rosto
A casa treme com o motor do caminhão lá fora
O relógio mastiga os minutos
E o inverno se instalou
Como um dente no fundo do horizonte
Praia
O vento lixa a areia
As moças dançam
seus passos não deixam marcas no chão
Há um espelho partido na espuma
E os corpos são apenas linhas que o mar apaga
Um navio esquecido na linha do horizonte
Prende o céu por um fio
Elas giram
sem música
sem pressa
A noite avança como uma mancha de tinta
Sobre as saias leves
O mar empurra as suas fatias de vidro contra o cais
E os rostos de Itanhaém
Perdem-se na fumaça cinzenta do farol
Dois poemas de ferros
O Vaso e a Chama
Triste matéria! Vaso em que a ruína opera,
Feito de cinza e lama, ao abandono e ao luto,
Que ao peso do elemento o tempo esboroa e pisa,
E que regressa ao pó de que nasceu cativo.
Chora a carne na terra a sua dor de fera,
Vítima do declínio e do pavor fortuito,
Enquanto o verme cego as vaidades divisa
E rói o orgulho vão do coração altivo.
Mas sobre a podridão desse contorno estreito,
Brilha a virtude pura, o Espírito divino,
Que não conhece o fim, nem cede ao preconceito.
Livre do cárcere vil, a alma rutilante
Rasga a mortalha escura e cumpre o seu destino:
— Ser luz no firmamento, eterna e triunfante!
As Estrelas de Mônica
Do claro espelho onde o desejo habita,
Rompendo a névoa do pudor mundano,
Surgiste, deusa, em majestade aflita,
No altar supremo do cenário humano.
Sob o clarão da tela que palpita,
Teu corpo de ouro, escultural, profano,
Prende os olhares em paixão bendita,
Rege o império do prazer tirano.
Brilham estrelas no teu peito acesas,
Não as do céu, que o firmamento encerra,
Mas as da carne, cheias de grandezas:
Glórias da musa que a plateia aclama,
Que, convertendo em arte o que era terra,
Deixou teu nome em labaredas de fama.
Soneto de Ébano e Escultura
Cheia de graça e de esplendor supremo,
Ergues no peito a perfeição da linha,
Onde o cinzel do Criador, supremo,
Traçou a forma que o universo vinha
Buscar no sonho. Em teu contorno gema
A noite imensa, retumbante e minha,
E o busto firme, que o desejo queima,
Como um par de astros na nudez caminha.
São dois altares de um altar sagrado,
Ricos de viço, altivos, soberanos,
Feitos de bronze e de luar moldado;
Negras colunas contra os tempos vãos,
Que desafiam os declínios humanos,
E cabem, justos, na concha das mãos.
Diante do Rio e do Céu
As nuvens do além flutuam sem pressa,
Nascem do nada e ao nada retornam,
Lentas montanhas de fumaça branca
Que o vento de outono esculpe e desfaz.
Abaixo delas, as garças brancas mergulham no vazio,
Um único traço de pincel contra o azul sem fim.
De onde vêm? Para onde viajam?
O céu não guarda as pegadas de suas asas.
O homem do exílio senta-se à beira do rio,
Sua mente é um espelho que reflete o infinito.
Nuvens e aves compartilham a mesma pureza,
Livres do peso que os homens carregam no peito.
O mundo corre como as águas do Yangtzé,
Mas o coração encontra repouso no espaço.
Olho para o além e já não sei quem sou:
Se a ave que parte, ou a nuvem que fica.
Ecos no Teto do Mundo
O céu é uma página branca que se rasga devagar.
Lá em cima,
onde o vento não tem nome,
as aves são traços de giz
num quadro-negro que esqueceram de apagar.
Elas cruzam a moldura do agora.
Asas de calcário,
costurando o vazio,
ignorando o peso que nos prende ao chão.
E ao além, as nuvens.
Catedrais de fumaça e estática,
arquitetura do esquecimento.
Elas guardam o que a terra perdeu.
O branco das penas se dissolve no branco do vapor.
Não há fronteira.
Apenas o horizonte,
essa linha que a gente inventa
para não enlouquecer de espaço.
O céu é um teto de vidro.
E nós olhamos para cima,
enquanto o mundo, silencioso,
desaba devagar.
O Luar-Cinza
Fio de foice, tardio.
Tu me costuras os olhos com o linho da noite,
luar.
Cinza-de-estrelas, calcinada.
O raio caminha por sobre a palavra que calamos.
Um olho de pedra, redondo,
bebe o que sobrou do sangue dos relógios.
Nós mudos.
A luz escorre como areia-viva
para dentro da boca do poço.
Onde estavas? No não-lugar do brilho,
onde o luar não alumia —
ele escava.
Escava a cinza, escava o sal,
põe a nu a medula do tempo.
Um cristal de noite,
firme entre os dentes do silêncio.
Nós vemos.
Fulgor
Lá em cima
o abismo
pisca
Cravadas
no escuro
como nós
feridas
de luz
que queimam
para não morrer
as estrelas brilham
como nós
Estertor
A noite
fura a vidraça
lâmina
de gelo
no gesso
do peito
O olhar
recolhe
o frio
d' Um sopro
agudo
que pesa
menos
que a dor.
Ocaso / Tramonto
Ocaso
O mar
engole
o último grito
do fogo
Resta
na boca da onda
um gosto
de cinza
e de infinito
Estou
desnudado
diante do imenso
Tramonto
Il mare
inghiotte
l'ultimo grido
del fuoco
Ciò che resta
nella bocca dell'onda è un sapore
di cenere
e di infinito
Sono
nudo
davanti all'immenso
