domingo, 24 de agosto de 2025

a flor que não voltarei a ver



eu a vi uma vez apenas,

e esse uma vez tem se repetido em mim como se fosse mil vezes,

não porque ela voltasse,

mas porque a memória insiste em florescer onde não há jardim.


era uma flor, simples dizer, mas nada simples,

um caule que se erguia como se recusasse a linguagem,

um vermelho — ou amarelo, quem sabe — que mudava conforme o ângulo,

eu, diante dela, era menos que um espectador,

era um cúmplice de algo que se abre e nunca mais se oferece.


olhei-a como se se tratasse de um segredo,

e talvez fosse,

pois havia na flor uma promessa de eternidade,

dessas que se quebram antes mesmo de se cumprir,

porque nada é eterno, exceto a falta.


e agora caminho, escrevo, lembro,

mas não reencontro,

a flor, repito, não voltará.

há nisso um alívio estranho,

como se eu tivesse sido escolhido para guardar,

não a flor, mas a ausência dela.


e a ausência, convenhamos,

é mais resistente que qualquer pétala.



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