eu a vi uma vez apenas,
e esse uma vez tem se repetido em mim como se fosse mil vezes,
não porque ela voltasse,
mas porque a memória insiste em florescer onde não há jardim.
era uma flor, simples dizer, mas nada simples,
um caule que se erguia como se recusasse a linguagem,
um vermelho — ou amarelo, quem sabe — que mudava conforme o ângulo,
eu, diante dela, era menos que um espectador,
era um cúmplice de algo que se abre e nunca mais se oferece.
olhei-a como se se tratasse de um segredo,
e talvez fosse,
pois havia na flor uma promessa de eternidade,
dessas que se quebram antes mesmo de se cumprir,
porque nada é eterno, exceto a falta.
e agora caminho, escrevo, lembro,
mas não reencontro,
a flor, repito, não voltará.
há nisso um alívio estranho,
como se eu tivesse sido escolhido para guardar,
não a flor, mas a ausência dela.
e a ausência, convenhamos,
é mais resistente que qualquer pétala.
Nenhum comentário:
Postar um comentário