quarta-feira, 27 de agosto de 2025

A Lagosta - e outros quatro poemas


A Lagosta

A lagosta se move devagar,

carapaça vermelha que lembra tijolos.

No fundo da água, suas antenas

varrem o espaço como cortinas balançando.


Se eu pudesse morar dentro dela,

haveria quartos para minhas mãos,

uma cozinha para minhas lembranças,

e janelas para a maré que nunca para.


Mesmo na solidão do aquário,

a lagosta mantém sua arquitetura,

seu mundo encapsulado em silêncio.




O Peixe e o Lago

Eu o vi deslizar sob a água verde,

lento, quase imóvel,

com olhos que guardavam segredos

que nenhum homem pode tocar.


Havia algo de definitivo nele,

uma calma que não se explica,

como se o lago inteiro soubesse

que a morte também nada,

e nós apenas flutuamos até encontrá-la.




 Chegada em Campinas

As ruas de Campinas me receberam

como uma manhã de verão:

luz que dobra sobre telhados e árvores,

vento que passa pelos becos e sacadas.


Senti meu coração bater em silêncio,

como se o mundo tivesse aberto um espaço

para que eu pudesse respirar,

apenas respirar e olhar.


E naquela cidade tranquila,

onde o passado e o presente se encontram,

soube que ficaria encantado para sempre.



A Casa

Volto em pensamento ao interior de São Paulo,

onde a casa branca espera entre os eucaliptos.

As portas rangem com o vento,

e o chão guarda o cheiro da terra molhada.


Sento na varanda e lembro das manhãs,

do café fumegante e do silêncio que fala.

Cada objeto parece sussurrar

histórias que só eu posso ouvir.


Mesmo agora, longe,

a saudade é um quarto iluminado

onde eu sempre volto.



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