dedicado a Kenzaburo Oe, o mestre JaponÊs!
¹ “A história se repete”, dizem os ecos das eras, e no coração do tempo, como uma roda eterna, as almas caminham sobre as cinzas dos impérios e as ruínas das suas próprias esperanças. Não há linha reta, apenas círculos que retornam com máscaras diferentes, e cada rosto que se levanta já estava inscrito nas estrelas.
² O destino da alma não é a fuga, mas a dança dentro da tempestade. Pois cada nascimento é também lembrança, cada morte é promessa, e os ossos enterrados na terra cantam canções que ninguém vivo compreende inteiramente.
³ Vejo nas sombras dos salões antigos os mesmos passos de reis e mendigos, como se fossem atores em uma peça interminável. A coroa passa de cabeça em cabeça, mas o peso dela nunca muda, e sempre curva a espinha do escolhido.
⁴ A alma busca libertação, mas encontra apenas símbolos: o falcão girando no alto, a lua dilacerada em duas faces, o sangue do poeta misturado à tinta. E nessas visões está a verdade: nada morre, apenas troca de véu.
⁵ Quando os povos clamam que tudo é novo, já se ouvem, nos corredores secretos do destino, as risadas suaves das fadas do tempo, que sabem que todo triunfo será pó, e que todo pó se erguerá de novo em triunfo.
⁶ A criança que sonha no berço já é o ancião que se curva sobre o cajado. Entre esses dois extremos, a alma escreve em círculos o que julga ser caminho, mas o traço é sempre espiral que retorna ao seu próprio centro.
⁷ Vejo o destino como uma torre que nunca termina de ser construída, e cada geração coloca pedras sobre pedras, sem perceber que, ao chegar mais alto, apenas olha o mesmo horizonte de outro ângulo.
⁸ O espírito humano, sedento de eternidade, procura na guerra, no amor, no silêncio, um sinal de ruptura. Mas os sinais são apenas reflexos: espelhos girando dentro de espelhos, cada um mostrando o mesmo rosto sob diferentes máscaras.
⁹ Quando a alma se perde em desespero, pensa ter encontrado o fim. Mas nesse abismo já há sementes, e das lágrimas do desolado brotam as flores que outra geração colherá, acreditando em novidade.
¹⁰ Assim a vida e a morte são amantes que dançam eternamente, cada um fingindo despedida, cada um retornando no mesmo abraço. E a alma, iludida, chama isso de destino, sem notar que ela mesma é a dança.
¹¹ O profeta vê em visões o giro das eras, e não distingue início de fim. Para ele, toda queda é ascensão disfarçada, e todo renascimento é apenas a antiga queda retomada sob novos céus.
¹² Por isso digo: “A história se repete”, não como prisão sem saída, mas como um cântico circular. O destino da alma é viver em símbolos, morrer em símbolos, e renascer em símbolos ainda mais profundos, até que o tempo se curve sobre si mesmo e a espiral se feche no fogo eterno.
sexta-feira, 26 de setembro de 2025
Tom Místico
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