I
Na praça, entre o cheiro de dendê e o batuque do povo,
aparece Sâmia,
voz firme como maré cheia,
olhos acesos de quem conhece a coragem.
Não é santa de altar,
nem figura de cartório,
é mulher de carne e riso,
que fala por dentro da vida
— e sua opinião corta como faca afiada
na feira do Pelourinho.
As gentes a cercam,
o estivador, a quitandeira,
o menino de rua que vende balas no sinal,
todos encontram nela um sopro de justiça.
Sâmia não fala de promessas distantes,
fala do hoje, do pão na mesa,
do corpo que dança e não deve ser humilhado,
da liberdade que é feita de suor e de sonho.
E o povo a escuta,
como quem escuta um samba de roda,
com palma, com gargalhada, com lágrima.
Porque sua palavra,
molhada de vida,
é a própria Bahia —
teimosa, rebelde,
cheia de esperança e de amor.
II
Na rua onde o povo se ajunta,
com cheiro de dendê,
riso largo e tambores,
aparece Sâmia,
com passo de quem não se curva,
com palavra de maré cheia.
Ela não é personagem de romance,
mas parece saída das páginas quentes da Bahia:
mulher que desafia o sol,
que dança e luta,
que traz no corpo a força antiga
das que nunca aceitaram o silêncio.
Sâmia fala,
e sua fala é faca que abre caminho,
é vento que espalha sementes,
é canto de feira livre,
misturando justiça e ternura
no mesmo tempero.
Os pescadores, as meninas da esquina,
os trabalhadores cansados,
ouvem nela o chamado da esperança,
como se Jorge Amado tivesse inventado
mais uma heroína —
não de ficção,
mas de carne e vida.
E no respeito de sua luta,
no brilho de sua coragem,
descansa o amor popular,
aquele que não se vende,
aquele que não morre.
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