¹ Havia, em tempos que os homens já não recordam, uma floresta vasta e profunda, onde os ventos uivavam como coros antigos, e o musgo cobria os troncos como vestes sacerdotais. Ali vivia um fauno solitário, guardião das sendas escondidas, criatura de pés ligeiros e coração inquieto, que tocava sua flauta de carvalho ao cair da tarde, quando a luz morria entre as árvores.
² Esse fauno, cujo nome se perdera no esquecimento dos homens, amava a floresta como se ela fosse mãe e irmã, e todos os animais vinham a ele em busca de consolo. Mas certa noite, quando a lua sangrava entre as nuvens e os grilos calaram suas vozes, o chão tremeu com um peso monstruoso, e uma sombra cobriu a clareira. Era um dragão, velho como as montanhas, com escamas negras e olhos de brasa ardente.
³ O dragão se aproximou, e a floresta pareceu encolher-se de terror. Sua voz era como trovão distante misturado ao rugido de fornalhas: “Pequeno pastor de árvores, nada tens que me impeça de transformar esta floresta em cinza. Vim porque a fome me guia, e a tua música não sacia meu ventre.” O fauno, trêmulo, manteve-se de pé, sustentado apenas por sua fé no mistério da vida que guardava.
⁴ Então, como quem fala a um irmão mais velho e perdido, o fauno respondeu: “Ó dragão, teus dentes devoram carne, mas tua alma tem fome maior que o fogo. Não vieste em busca de caça ou de madeira, mas de um descanso que jamais encontrarás na ruína.” Suas palavras, ditas em voz frágil, ecoaram como se a própria floresta tivesse falado por ele.
⁵ O dragão riu, e seu hálito queimou as folhas ao redor. “Descanso? O que pode saber um ser metade homem, metade fera, das angústias de quem nasceu para a solidão eterna? Pois eu vaguei por eras, destruí reinos, acumulei tesouros e cavei cavernas, e nada disso me basta. O fogo consome a tudo, mas não preenche o vazio.”
⁶ O fauno baixou os olhos e respondeu: “És mais semelhante a mim do que imaginas. Eu também conheço a solidão. Caminho por esta floresta sem companheira, e só o vento me responde. Mas aprendi que não existe criatura feita apenas para si mesma. Toda vida foi criada para oferecer-se em amor, e não para guardar em cativeiro.”
⁷ As palavras atingiram o dragão como flechas invisíveis. Ele cerrou os olhos e por um instante cessou de expelir fumaça. A floresta permaneceu em silêncio profundo, como quem aguarda a decisão de um rei. No coração do fauno havia medo, mas também esperança, e ele ousou avançar um passo, estendendo a flauta como se fosse um estandarte.
⁸ “Toca então tua música,” disse o dragão, “e prova que pode saciar a fome de minha alma. Se falhares, devorarei não apenas ti, mas toda a tua floresta.” O fauno levou a flauta aos lábios, e dela nasceu um cântico suave, tão antigo quanto as raízes da terra, melodia que falava de rios e sementes, de infância e aurora, e que subia como oração ao céu invisível.
⁹ Enquanto a música se erguia, o dragão começou a tremer. Suas escamas ressoaram como sinos quebrados, e lágrimas de fogo escorreram de seus olhos. A melodia não destruía nem feria, apenas lembrava. Era um chamado àquilo que havia antes da queda, antes da cobiça, antes da solidão. O dragão curvou-se, e sua testa tocou o chão.
¹⁰ “Há tanto tempo esqueci,” murmurou a fera, “que fui feito para mais do que consumir e reter. Esqueci que havia um propósito mais alto que meu fogo. Mas como pode haver redenção para um monstro que destruiu cidades e enegreceu céus com sua fumaça?”
¹¹ O fauno cessou sua música e respondeu com voz calma: “A redenção não nasce do que acumulaste ou destruíste, mas daquilo que reconheces agora. Nenhuma criatura é tão perdida que não possa ser tocada pela luz. Pois não é a força do fogo que vence a treva, mas a humildade do coração que se entrega.”
¹² Então, pela primeira vez desde sua criação, o dragão suspirou em paz. Suas chamas cessaram, e sua forma monstruosa começou a dissolver-se como névoa ao sol nascente. No lugar da fera ficou apenas um sopro de vento quente que se ergueu ao céu, como incenso diante do altar invisível. O fauno, sozinho na clareira, compreendeu o mistério: que até o mais terrível dos seres pode ser transformado quando se volta à Glória que sustenta o mundo. E ao tocar novamente sua flauta, parecia que não era só ele quem tocava, mas o próprio Criador, guiando todas as criaturas ao repouso eterno.
terça-feira, 9 de setembro de 2025
O Dragão e o Fauno
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