₁ Millôr Fernandes nunca existiu. Era uma piada que ganhou carteira de identidade, CPF e coluna no jornal. O nome era pseudônimo, o humor era pseudônimo, só a inteligência era verdadeira. Diziam que ele escrevia com o fígado, mas era mentira: escrevia com o pâncreas, que é um órgão muito mais amargo.
₂ Millôr não nasceu, aconteceu. Como uma charge que escapa da caneta antes da tinta, como uma frase que chega à boca antes da censura, como uma gargalhada que antecede a piada. Enquanto alguns esperavam inspiração, ele esperava só que o café esfriasse.
₃ O melhor de Millôr é que ele não tinha medo de parecer pior. Fazia do erro a própria piada, do tropeço uma metáfora, da bobagem um aforismo. Inventou o esporte radical de rir da própria desgraça e descobriu que era o único campeonato onde ele sempre ganhava.
₄ A grande diferença entre Millôr e Deus é que Deus descansou no sétimo dia, e Millôr publicou coluna. Deus fez o mundo em sete atos, Millôr desmontava o mundo em três linhas. No final, os dois foram acusados de plágio um do outro.
₅ No Pasquim, ele era menos jornalista do que terrorista com máquina de escrever. Jogava bombas de ironia, estilhaçava egos com aspas, explodia solenidades com trocadilhos. Sua pólvora era a palavra, e ainda assim nunca deixou vítima: só leitores mais atentos.
₆ Millôr foi filósofo sem academia, professor sem quadro negro e poeta sem paciência. Explicava o absurdo do mundo como quem explica a conta de bar: com lógica incompreensível e matemática infalível. E no fim ainda sobrava troco, que era a piada.
₇ Alguns diziam que ele era cínico. Errado. Cínico é quem finge acreditar; Millôr acreditava fingindo. Transformava o niilismo em cartum, a desesperança em gargalhada e a filosofia em bula de remédio com efeitos colaterais de riso.
₈ Sua ética era simples: ninguém está a salvo, principalmente ele mesmo. Criticava presidentes e criticava o espelho. Escrevia contra generais e contra a própria caligrafia. Foi o único brasileiro a brigar com o próprio ponto final — e perder.
₉ O humor de Millôr não era inocente nem culpado. Era cúmplice. Ria de nós, com nós e contra nós, tudo ao mesmo tempo. Fazia o leitor se sentir inteligente e idiota na mesma linha. Era como se ele nos convidasse para uma festa e, quando chegávamos, descobríamos que éramos o bufê.
₁₀ Millôr tinha uma obsessão: a liberdade. Não aquela liberdade ornamental de discursos, mas a liberdade prática de desenhar bigode no rosto do poder. Para ele, censura era elogio invertido. E elogio, às vezes, era censura disfarçada.
₁₁ Muitos tentaram imitá-lo. Todos fracassaram. Porque o segredo de Millôr não estava no trocadilho, mas na coragem. O trocadilho é só a sombra; a luz vem do atrevimento de dizer o que ninguém ousa. Ele dizia, e depois rabiscava uma caricatura em cima, só para ficar claro.
₁₂ Se Millôr fosse vivo hoje, estaria morto de rir. E se estivesse morto, estaria vivo em cada frase que nos obriga a pensar rindo e a rir pensando. No fim, Millôr é o mellor Millôr porque nunca foi só um. Foi todos nós, multiplicados em ironia, resumidos em rabisco, eternizados em piada.
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