quinta-feira, 13 de novembro de 2025

A ORAÇÃO DE UM PAULISTA

Morri, tô nem aí:

vou ressuscitar amanhã

debaixo de um pé de manga em Copacabana,

onde o mar reza com suas mãos salgadas

e o vento abre o evangelho das ruas.


Levarei nos braços

o beijo de Juliana,

travessia luminosa,

travesti negra e bela

como um anjo que perdeu as asas

e encontrou um corpo para habitar o mundo.


Morri — e não me importo.

Voltarei entre os bagos de Lorca,

onde a poesia fermenta o universo,

e no feijão com arroz das mulheres negras encarceradas

nos porões da história,

onde a fome ainda canta

mesmo sem boca.


Morri — e daí?

Subirei ao céu suburbano,

levando a Miguel, o arqueiro,

o beijo de Emanuel,

menino gay,

santo sem altar,

que tombou num dia treze qualquer,

perdido na contabilidade triste

dos inocentes.


Juro por mim mesmo

que as igrejas são corações,

pulsando na escuridão dos templos,

e meu grito é silêncio,

minha oração é carne,

meu evangelho é rua,

meu céu é o retorno.


Amém?

— Amém.

Pois até Deus,

quando morre,

volta pela porta da madrugada.




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