terça-feira, 11 de novembro de 2025

O Canto Ibérico

Não é de fronteiras que falo,

nem de reis que passam,

nem de pactos que o vento rasga no tempo.

Falo da alma que fala duas línguas e sonha uma só música,

falo da saudade e do sangue misturados

como vinhos diferentes no mesmo cálice.


Portugal é o poente do sonho,

Espanha é o sol que o acende.

Entre os dois, corre um rio de fogo e silêncio,

onde o espírito se vê ao espelho

e não sabe se reza ou canta.


Chamam-lhe Ibéria —

mas é só um nome de pedra para uma chama viva.

Deus soprou duas vezes sobre o mesmo barro,

e saíram irmãos trágicos:

um olhando o mar, outro olhando o céu.


E do outro lado do mar,

os filhos desse vento nasceram de novo —

Brasil, Argentina, Chile, Uruguai,

novas vozes da mesma garganta de sol.

A língua, desdobrada em mil acentos,

é o mesmo pão partido por muitos.


Não peço união, peço comunhão.

Que as ideias atravessem fronteiras

como pássaros de ouro e melancolia.

Que o verbo de Cervantes encontre o sonho de Camões,

e no encontro, o mundo ouça o sentido da luz.


Ibéria não é um mapa: é um estado de alma.

E sua pátria é todo o que sente o que somos,

todo o que diz — em qualquer porto ou planície —

com voz antiga e viva:

sou da terra onde o sol tem pensamento.

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