domingo, 16 de novembro de 2025

o beijo que desfez o horizonte


a travesti caminhava pela rua como quem atravessa um sonho que não pediu. tinha nos pés um cansaço antigo e nos ombros a memória de todas as vezes em que o mundo lhe disse: não. mas o coração dela, teimoso como uma semente, continuava florescendo nas horas mais improváveis. era ao entardecer, quando o céu se apoia nos prédios como um animal cansado, que ela viu o homem loiro. parecia que tinha o cabelo feito de luz caída. ele olhava para nada, como se carregasse um segredo grande demais para guardar, pequeno demais para confessar. e quando seus olhos se encontraram, houve um silêncio tão redondo que até as árvores pareceram parar de pensar. ela sorriu com o jeito de quem pede licença para existir. ele sorriu como quem devolve esse pedido e diz vem, senta aqui no meu peito. conversaram pouco, porque a linguagem entre dois solitários costuma ser feita mais de respirações do que de frases. ele tocou a mão dela como se tocasse um milagre – desses que não vêm de deus, mas de alguém que finalmente te vê. e então, num gesto manso, ele a beijou. um beijo pequeno, de quem tem medo de quebrar um pássaro. um beijo tão leve que quase não pousou nela. e foi ali, naquele segundo quieto, que tudo aconteceu.

o homem loiro começou a desaparecer.

como se o beijo tivesse rompido a lógica do mundo. como se amar fosse abrir uma porta que ninguém controla. seus ombros viraram linha, seu rosto virou claridade, seu corpo virou vento. e ela, com as mãos desesperadas, tentava segurar o que já não tinha peso. meu deus, disse ela, num murmúrio que só o coração escutou, eu só queria ser amada. e o horizonte respondeu com uma luz pálida, como se soubesse exatamente o que ela queria dizer. quando ele sumiu por completo, ficou apenas um calor leve na boca dela. um calor que parecia prometer que um dia voltaria, mesmo que mentira. ela ficou ali parada, com o céu entrando em noite e o peito entrando em silêncio.

e caminhou de volta para casa com passos pequenos, como quem carrega dentro de si algo tão frágil que pode quebrar a qualquer instante. e enquanto andava, percebeu que uma parte dele ainda brilhava nela, como uma estrela teimosa recusando-se a se apagar. porque amar, pensou ela, é isso: às vezes o outro desaparece, mas você permanece iluminada. e essa luz ninguém consegue levar.



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