terça-feira, 11 de novembro de 2025

A Caverna de Valentim Coimbra


Valentim Coimbra morava no centro.

Um quarto de pensão na Rua Aurora.

Janela virada pro muro, cheiro de fritura e mijo.

Dizia que trabalhava com documentos — era mentira.

Passava os dias andando pela cidade, olhando as pessoas como quem lê um livro que já sabe o final.


Via a miséria como quem vê um espelho rachado.

Crianças fumando crack ao lado de igrejas.

Velhos deitados nas calçadas como santos derrotados.

A polícia passando devagar, metralhadora no colo, o olhar vazio.

Homens que vendiam o corpo. Mulheres que não tinham mais corpo pra vender.

E o riso dos idiotas no bar, o noticiário com cadáveres de manhã, os ônibus cuspindo fumaça.


Valentim achava que o mal não vinha dos outros — vinha do ar.

Respirava e sentia o gosto metálico da cidade.

Dizia pra si mesmo: “São Paulo é um pulmão que só sabe tossir.”


Um dia, caminhou até o fim da linha.

Pegou o metrô, depois o ônibus, depois outro ônibus.

Saiu na Serra da Cantareira e começou a andar.

O barulho da cidade foi ficando distante, pequeno.

O silêncio começou a ter peso.


Encontrou uma caverna.

Pequena, úmida, mas limpa.

Parecia um pulmão também — só que esse respirava.


Ficou ali.

Primeiro um dia. Depois uma semana. Depois o tempo perdeu nome.

Aprendeu o som da chuva dentro da pedra.

Aprendeu o ritmo dos pássaros.

Aprendeu a esquecer.


Levava um pouco de arroz, umas frutas, e a ideia de que o mundo já tinha acabado.

Quando descia até a cidade pra comprar comida, sentia que estava entrando num sonho ruim.

As pessoas continuavam a se mover — mas ele já sabia: nenhuma delas estava viva.


À noite, na caverna, escrevia frases em um caderno.

Não poemas, não confissões.

Só frases como pedras:


 “O homem inventou a cidade pra se esconder de si mesmo.”

 “Toda luz é suspeita.”

 “A polícia não prende — apenas confirma.”

 “A fome é o nome verdadeiro de Deus.”


Depois parou de escrever.

O silêncio o bastava.


Dizem que ainda mora lá,

em algum ponto da serra,

entre musgo e vento,

alimentando-se de nada —

como se o nada fosse o último alimento puro do mundo.



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