Valentim Coimbra morava no centro.
Um quarto de pensão na Rua Aurora.
Janela virada pro muro, cheiro de fritura e mijo.
Dizia que trabalhava com documentos — era mentira.
Passava os dias andando pela cidade, olhando as pessoas como quem lê um livro que já sabe o final.
Via a miséria como quem vê um espelho rachado.
Crianças fumando crack ao lado de igrejas.
Velhos deitados nas calçadas como santos derrotados.
A polícia passando devagar, metralhadora no colo, o olhar vazio.
Homens que vendiam o corpo. Mulheres que não tinham mais corpo pra vender.
E o riso dos idiotas no bar, o noticiário com cadáveres de manhã, os ônibus cuspindo fumaça.
Valentim achava que o mal não vinha dos outros — vinha do ar.
Respirava e sentia o gosto metálico da cidade.
Dizia pra si mesmo: “São Paulo é um pulmão que só sabe tossir.”
Um dia, caminhou até o fim da linha.
Pegou o metrô, depois o ônibus, depois outro ônibus.
Saiu na Serra da Cantareira e começou a andar.
O barulho da cidade foi ficando distante, pequeno.
O silêncio começou a ter peso.
Encontrou uma caverna.
Pequena, úmida, mas limpa.
Parecia um pulmão também — só que esse respirava.
Ficou ali.
Primeiro um dia. Depois uma semana. Depois o tempo perdeu nome.
Aprendeu o som da chuva dentro da pedra.
Aprendeu o ritmo dos pássaros.
Aprendeu a esquecer.
Levava um pouco de arroz, umas frutas, e a ideia de que o mundo já tinha acabado.
Quando descia até a cidade pra comprar comida, sentia que estava entrando num sonho ruim.
As pessoas continuavam a se mover — mas ele já sabia: nenhuma delas estava viva.
À noite, na caverna, escrevia frases em um caderno.
Não poemas, não confissões.
Só frases como pedras:
“O homem inventou a cidade pra se esconder de si mesmo.”
“Toda luz é suspeita.”
“A polícia não prende — apenas confirma.”
“A fome é o nome verdadeiro de Deus.”
Depois parou de escrever.
O silêncio o bastava.
Dizem que ainda mora lá,
em algum ponto da serra,
entre musgo e vento,
alimentando-se de nada —
como se o nada fosse o último alimento puro do mundo.
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