Morri, tô nem aí:
vou ressuscitar amanhã
debaixo de um pé de manga em Copacabana,
onde o mar reza com suas mãos salgadas
e o vento abre o evangelho das ruas.
Levarei nos braços
o beijo de Juliana,
travessia luminosa,
travesti negra e bela
como um anjo que perdeu as asas
e encontrou um corpo para habitar o mundo.
Morri — e não me importo.
Voltarei entre os bagos de Lorca,
onde a poesia fermenta o universo,
e no feijão com arroz das mulheres negras encarceradas
nos porões da história,
onde a fome ainda canta
mesmo sem boca.
Morri — e daí?
Subirei ao céu suburbano,
levando a Miguel, o arqueiro,
o beijo de Emanuel,
menino gay,
santo sem altar,
que tombou num dia treze qualquer,
perdido na contabilidade triste
dos inocentes.
Juro por mim mesmo
que as igrejas são corações,
pulsando na escuridão dos templos,
e meu grito é silêncio,
minha oração é carne,
meu evangelho é rua,
meu céu é o retorno.
Amém?
— Amém.
Pois até Deus,
quando morre,
volta pela porta da madrugada.
Nenhum comentário:
Postar um comentário