Eu — judeu feito de pó e promessa,
carrego nos ossos as vozes que ardem,
o deserto que caminha comigo
como um anjo cansado.
E tu — goy de passos abertos,
traz nos olhos a claridade do mundo
que não sabe de fronteiras,
a inocência que meu povo esqueceu
na pressa de sobreviver.
Entre nós,
há fios invisíveis,
como se Deus bordasse
um raro instante de paz
num pano rasgado.
Te amo
com as mãos trementes
de quem já perdeu tudo,
e ainda assim abre a porta
para um estranho de luz.
No teu peito,
escuto um coração sem memória
cantando para o meu,
que traz a memória demais —
e mesmo assim responde.
Somos dois viajantes
numa noite que não conhece
nenhum nome sagrado ou proibido,
apenas o sopro quente
que une respiração a respiração.
E talvez o Eterno,
lá no silêncio onde Ele se esconde,
sorria de ver
que a dor do mundo
ainda sabe transformar-se
em amor.

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