segunda-feira, 1 de setembro de 2025

A morte é uma fama

para l.f.v.


Ele morreu numa madrugada de sábado, dia 30 de agosto de 2025, num hospital em Porto Alegre. A causa? Complicações de uma pneumonia. Estava internado desde o dia 11, na UTI do Hospital Moinhos de Vento . O curioso nisso tudo é que pronto, morre, e de repente ele vira uma evidência de que viver foi, afinal, mais uma piada de mau gosto — como ele mesmo chegou a dizer que seria, um dia. No velório, a Assembleia Legislativa encheu-se de gente mais para se ver do que para ver quem foi. De um lado, a família, tomada pela perda concreta; do outro, admiradores que mal o conheciam pessoalmente, mas precisavam se despedir como quem entra num culto coletivo do 'que falta ele fará'. Ele, que passou a vida escrevendo sobre as pequenas tragédias ridículas da vida privada, estava agora no centro de uma tragédia pública, feita de obituários, depoimentos e hashtags. A viúva falou em 'parceria de 61 anos' como se fosse o troféu máximo de um casamento bem-sucedido — ao mesmo tempo nota de afeto e rótulo social . As filhas aproveitaram para dizer que confortava ver tanto carinho — e ali, nesse conforto, há também um leve desconforto: a gentileza das palavras substitui o silêncio que ele, em vida, às vezes escolhia como estilo. O governador decretou luto oficial de três dias, o presidente elogiou os talentos múltiplos do cronista que desnudava a sociedade com humor e sensibilidade ). A Academia Brasileira de Letras mandou nota seca, institucional — como quem manda flores via telegrama, simbolicamente educado, mas ainda flores mortas . E aí, numa ironia que só Fernando pode ter previsto com antecedência, a morte de Verissimo se transformou num simulacro de vida. Sua ausência gerou mais aplausos do que suas crônicas às vezes geravam em vida. Tanta gente dizendo 'um gigante da literatura brasileira' — e ele, que nunca buscou esse pedestal, provavelmente daria uma gargalhada se pudesse. Porque o mundo mostrou carinho, sim. Mas um carinho do tipo bem arrumado: estátua, discurso, traje escuro, lágrima impessoal. Um carinho que cabe em três dias de luto oficial, em uma nota formal da ABL, num depoimento emocionado que vai passar no jornal da noite e depois, apagado. Carinho com validade de manchete. E Verissimo, que desafiava os leitores a rir das suas próprias misérias, se foi sem ver o dinheiro pingando na conta por causa da divulgação da sua morte. Sem um novo bestseller póstumo, sem uma exposição tardia de quadrinhos nos jornais, sem a chance de responder ao aplauso tardio com uma crônica final sobre o absurdo de morrer aplaudido. A verdade crua é que o afeto que o mundo mostrou — ainda que sincero — era o mesmo tipo de falsidade que ele criticava com finíssima ironia: cortês por obrigação, sentimental por convenção, mas vazio de vida. A morte, como fama, funciona assim. Mas o que consome a gente de verdade não é esse mundo frio, nem a época em que ele viveu. O que fere mesmo é saber que esse beijo coletivo é o que nos resta quando a pessoa não está mais aqui. E isso, para ele, teria sido uma crônica boa demais para ser escrita com tamanha precisão. No fundo, a morte foi uma fama, e a fama uma sepultura mais cheia do que ele jamais pôde querer para si. Resta, então, a gente ler, reler e rir — ou chorar, porque rir e chorar convivem lado a lado nas crônicas que ficam — tentando entender a piada maior: vivemos num planeta que só consagra quem já foi embora.



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