Conheci Bolaño num café úmido de Girona. Eu era brasileiro, ele não perguntou. Ele dizia coisas como: “a literatura é um vício mais perigoso que a heroína”, e tossia entre cigarros baratos. Me disse que admirava Rubem Fonseca, mas que o verdadeiro gênio era Onetti. Eu não discordei. Nunca discordava de Roberto.
Escrevíamos poemas miseráveis. Ele publicou. Eu continuei anônimo. A diferença entre nós era que ele acreditava que a literatura podia redimir alguma coisa. Eu não. Nunca acreditei.
Por volta de 1999, comecei a pensar em matá-lo.
Nada pessoal. Ele não me devia nada. Mas eu sonhava com a glória póstuma. A lenda do poeta esquecido que assassinou o grande romancista chileno. Tinha algo de rimbaudiano nisso. Algo torcido e necessário.
Comecei a segui-lo. Sabia seus hábitos. O bar que frequentava. A livraria onde fazia leituras. Uma vez, entrei na fila de autógrafos. Quando me viu, sorriu:
— Você ainda escreve?
— Só planos — respondi.
Ele riu. Autografou: “para meu amigo que planeja demais”.
Comprei uma pistola Glock no mercado negro de Barcelona. Andava com ela no bolso do sobretudo. Quente, metálica, inevitável.
Numa quinta-feira chuvosa, segui Bolaño até um parque. Estava sóbrio. Ele parou num banco, abriu um caderno. Eu também parei. A arma em punho. Bastava um gesto.
Então vi que ele chorava. Chorava enquanto escrevia. A mão tremia, o cigarro queimava os dedos e ele nem percebia. Havia dor ali. Real, insuportável. Era um homem doente, condenado, lutando contra a morte com palavras inúteis. Percebi: ele já estava morrendo.
Guardei a arma. Fui embora.
No dia seguinte, embarquei para Joanesburgo. Por que África do Sul? Porque ninguém lê poesia lá. Era o lugar ideal para esquecer que fui poeta. Trabalhei com escavações. Usei o corpo. Aprendi a calar.
Em 2003, soube da morte dele pelo jornal. Disseram que estava escrevendo um livro inacabado. Pensei: todos os livros estão inacabados. Os vivos, mais ainda.
Às vezes, em sonhos, volto àquele banco do parque. Ele olha pra mim, sorri e pergunta:
— Ainda escreve?
— Não.
— Ainda planeja?
— Sempre.
Acordo suando, a mão fechada como se segurasse uma arma invisível.
Mas não. É só um velho poeta
que nunca publicou.
E nunca matou ninguém.
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