terça-feira, 24 de junho de 2025

Soneto da Herança Inútil

 Soneto da Herança Inútil

Herdei de antigos nomes a fumaça,
Sombras de brasões, guerras e desterro.
De reis vencidos trago o vão aferro,
E um orgulho que em mim já não se enlaça.

O tempo, que apaga a forma e a ameaça,
Ri dos escudos, cospe sobre o erro.
Sou filho de fantasmas e desterro,
Um eco de linhagem sem carcaça.

Mas há na Europa — em mapas e invernos —
Um sangue que me acena, e, sem razão,
Desperta em mim seus mitos taciturnos.

Não vale a pena ser quem fui, ao menos,
Mas celebro os espelhos, a ilusão
De crer-me antigo, entre destinos diurnos.

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