terça-feira, 24 de junho de 2025

POEMA COM DATA (QUE NÃO SERVE PRA NADA)

 POEMA COM DATA (QUE NÃO SERVE PRA NADA)

Escrevi este poema no dia 24 de junho
de um ano irrelevante para a história da humanidade
mas muito importante para mim
porque tive gases o dia inteiro
e a sensação de que minha existência era um erro de digitação.

Dizem que é importante datar os poemas
como quem crava uma estaca no tempo
como quem afirma:
“eu estive aqui!”
(pois bem — os cães também mijam nos postes e ninguém os chama de poetas)

A data serve para que os estudiosos
no futuro
com suas teses inúteis
e seus ternos com caspa poética
digam coisas como:
“é um poema de maturidade cínica do autor, vejam o uso do enjambement”
quando na verdade
eu só estava com vontade de cagar
e não tinha papel no banheiro.

Datar o poema é uma tentativa de eternidade.
Uma tentativa patética.
Como tatuar o nome de um amor na virilha
e depois terminar no dia seguinte por WhatsApp.

Escrevo este poema às 14h12,
com 47% de bateria
e a esperança de que ninguém o leia.
Ou que todos o leiam.
(é a mesma coisa)

A data está aqui, sim:
pregada como um rótulo em frasco vazio.
Mas quando você o ler, leitor do século 22,
se é que ainda existirão olhos e não só scanners,
saiba:
essa data não significa nada.
Assim como este poema.
Assim como você.
Assim como eu.

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