domingo, 29 de junho de 2025

Identidade de Cinzas

 Me chamo Eli Cohen e não falo iídiche. Meu pai vendia tecidos em Brno, e minha mãe me dizia que judeu era quem a polícia batia primeiro. Estudava engenharia antes de o mundo se tornar um campo de triagem.Cheguei a Auschwitz num trem em março de 1944, trem lotado de judeus, mas sem nenhuma unidade. Alguns rezavam, outros vomitavam. Eu tentava respirar. No vagão ao lado, uma mulher dava à luz. A criança nasceu em pé, empurrada pela compressão dos corpos. Ela morreu antes de entender o nome do lugar.

Fui separado de meu pai na rampa. Nunca mais o vi. Nem ele a mim.No bloco 17, havia um grupo de judeus ortodoxos vindos da Letônia. Barbas longas, olhos fundos, cobriam a cabeça até quando dormiam. Me olharam com estranheza quando perguntei, em tcheco, se aquele era nosso bloco. Um deles respondeu em iídiche, não entendi.

Jude não-falante de iídiche, o que é você? — disse um, franzindo o nariz como se eu cheirasse a cristão.
— Judeu, como vocês.
— Mas não fala a língua de Deus.
A língua de Deus. Deus não falava mais. Se falava, era pelas torres de fumaça que saíam das chaminés da cremação. Fiquei calado. Um silêncio que duraria dois anos.Depois me rejeitaram os judeus alemães. Cultos, cheios de Goethe na boca e Schopenhauer no olhar. Disseram que meu sotaque era grosseiro, minha alma de província. Um deles lia Heine à noite, declamava no escuro como se a beleza fosse resistir ao gás. Me ignoravam. Não me achavam digno da desgraça deles.

Fiquei entre os não-ditos, os não-língua, os não-povo.

O tempo não passava. O tempo se desmanchava. O tempo era o vento que levava o cabelo dos recém-chegados.

Fui designado ao Sonderkommando. Carregava corpos. Um médico húngaro, ainda com a caneta no bolso, morreu com os olhos abertos. Recolhi seu corpo, reparei que os dedos estavam limpos, sem calos. Murmurei: “Não durou muito.” Senti vergonha por pensar isso. Depois percebi que ninguém ali durava. Nem as ideias.

Um dia vi um dos ortodoxos letões sendo espancado por um SS. Ele gritava em iídiche. Não entendi uma palavra. Ainda assim, senti pena. Quis socorrer. Mas lembrei: não era meu irmão, eu não falava a língua de Deus.

Uma noite, um dos alemães cultos morreu de frio. Achei um caderno com anotações em alemão. “Auschwitz é a ausência do homem”, ele escreveu. Quis rir. Ri.

Outro dia, um ucraniano me deu um pedaço de pão porque eu tinha lhe dado água. A troca mais humana que tive em dois anos. Não me perguntou de onde eu era, nem qual minha língua. Só mastigou o pão. Compartilhamos o silêncio. Foi o momento mais puro da minha fé.

Quando o campo foi libertado, eu já não sabia meu nome. Eli Cohen era um eco. Saí andando. Um soldado russo me perguntou quem eu era. Respondi:

Sou o que sobrou.

Hoje, sentado num banco em Praga, vejo pessoas discutindo se Israel deve existir, se judeus são um povo, se o Holocausto foi exagerado. Me oferecem vinho kosher em cerimônias de memória. Não aceito. Só bebo água.

Entendi a vida em Auschwitz. Entendi o que ela é quando se perde tudo, até o nome. Entendi que a identidade é um luxo de quem tem espelho.

Em Auschwitz não havia espelhos. Só fumaça. E ainda assim, vi.

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