Soneto para Beckett, que Esperava em Silêncio
Beckett escreveu com pedra e abandono,
com fome, com piolhos, com elegância.
Fez do vazio sua última infância
e do tédio um idioma sem patrono.
Escrevia como quem cava um sono
no chão sujo da própria discrepância.
Deus não vinha. A guerra, redundância.
E os homens — marionetes de um outono.
O palco era um esgoto iluminado.
Ali falavam bocas sem contexto,
e o tempo mastigava o condenado.
Bendito seja o velho e o seu protesto:
esperar, esperando o inacabado,
e rir, com o desespero no gesto.
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