POEMA COM DATA (QUE NÃO SERVE PRA NADA)
Escrevi este poema no dia 24 de junho
de um ano irrelevante para a história da humanidade
mas muito importante para mim
porque tive gases o dia inteiro
e a sensação de que minha existência era um erro de digitação.
Dizem que é importante datar os poemas
como quem crava uma estaca no tempo
como quem afirma:
“eu estive aqui!”
(pois bem — os cães também mijam nos postes e ninguém os chama de poetas)
A data serve para que os estudiosos
no futuro
com suas teses inúteis
e seus ternos com caspa poética
digam coisas como:
“é um poema de maturidade cínica do autor, vejam o uso do enjambement”
quando na verdade
eu só estava com vontade de cagar
e não tinha papel no banheiro.
Datar o poema é uma tentativa de eternidade.
Uma tentativa patética.
Como tatuar o nome de um amor na virilha
e depois terminar no dia seguinte por WhatsApp.
Escrevo este poema às 14h12,
com 47% de bateria
e a esperança de que ninguém o leia.
Ou que todos o leiam.
(é a mesma coisa)
A data está aqui, sim:
pregada como um rótulo em frasco vazio.
Mas quando você o ler, leitor do século 22,
se é que ainda existirão olhos e não só scanners,
saiba:
essa data não significa nada.
Assim como este poema.
Assim como você.
Assim como eu.
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