Personagens:
SAUL – homem judeu, quarenta anos, tímido, introspectivo, virgem.
MIRIAM – sua mãe viúva, pragmática, controladora, amorosa à sua maneira.
RACHEL – prostituta de trinta e poucos anos, espirituosa, experiente, sensível.
ATO I
Cenário: Sala de estar de um apartamento antigo. Tapete desbotado. Um sofá gasto. Cortinas que não se abrem totalmente. Uma mesa pequena com uma toalha de crochê. Retratos de família nas paredes.
[Saul está sentado no sofá, lendo o jornal. Miriam entra com uma bandeja de chá. Longo silêncio.]
MIRIAM:
(Secamente) Chá?
SAUL:
Obrigado.
[Silêncio. Ele pega a xícara. Bebe.]
MIRIAM:
Você tem quarenta anos, Saul.
SAUL:
(sem levantar os olhos) Sim.
MIRIAM:
Sabe o que isso significa?
SAUL:
Não exatamente.
MIRIAM:
Significa que já é hora.
SAUL:
Hora de quê?
MIRIAM:
De virar homem.
SAUL:
(Sorri, desconfortável) Sou homem.
MIRIAM:
Virar homem, homem mesmo. Com mulher. Você entende. Eu já contratei.
SAUL:
(engasga com o chá) O quê?
MIRIAM:
RACHEL. Chega às sete. Limpa, educada. Judia. Nada de goiá. E boa de conversa, segundo me disseram.
SAUL:
Mãe...
MIRIAM:
Não quero morrer sem ver meu filho sabendo onde é o botão do sutiã.
SAUL:
(Murmura) Isso é humilhante.
MIRIAM:
Não, humilhante é morrer virgem e deixar a alma presa num limbo entre o adultério e o nada.
SAUL:
Isso não é nem teologia.
MIRIAM:
É maternidade.
[Silêncio. Saul se levanta, caminha em direção à janela. Abre a cortina um pouco.]
SAUL:
E se eu não quiser?
MIRIAM:
Então ela vai embora. Mas você paga do mesmo jeito.
SAUL:
Com que dinheiro?
MIRIAM:
Com o que eu escondi da pensão do seu pai. Não discuta. Vá tomar banho. E vista a camisa azul. A que não parece de enterro.
[Silêncio. Saul hesita. Miriam o encara. Ele sai.]
[Luzes baixam.]
ATO II
Cenário: A mesma sala. Agora à noite. Uma garrafa de vinho aberta. Rachel está sentada no sofá, de pernas cruzadas. Miriam está na poltrona, tricotando. Saul está em pé, encostado na parede, camisa amarrotada, com um leve sorriso no rosto.
[Silêncio constrangedor.]
RACHEL:
(Secamente) Foi... agradável.
SAUL:
(Sincero) Você me olhou nos olhos.
RACHEL:
Sim. Tenho essa mania.
MIRIAM:
(Ainda tricotando) Casem-se.
SAUL e RACHEL:
(Olhando para Miriam) O quê?
MIRIAM:
Casem-se. Ele precisa de alguém. Você parece ter paciência. E ele sorriu, pela primeira vez em seis anos.
RACHEL:
(Desconcertada) Isso é sério?
MIRIAM:
Eu estou com o coração leve. O céu está azul e eu estou com tontura.
SAUL:
Mãe...
MIRIAM:
Shhh. Me deixe falar. (Pausa.) Eu quero morrer em paz. Saber que deixei você com alguém que lava as costas. Isso é muito importante. As costas.
RACHEL:
Eu não sou exatamente o que uma sogra sonha...
MIRIAM:
Você é o que eu sonhei. Porque você não fugiu. Você ficou. Isso já faz de você uma santa no calendário Halevi.
[Silêncio. Todos olham uns para os outros. Uma pequena emoção contida no ar.]
MIRIAM:
Agora, vou deitar um pouco. Sinto o coração bater como tambor sefardita. Se eu morrer, quero que toquem violino. E não chorem muito. Chorar enruga.
[Ela se levanta, vai até o quarto. Fecha a porta suavemente.]
[Saul e Rachel ficam sozinhos.]
SAUL:
Você quer mesmo... casar?
RACHEL:
Depende. Você cozinha?
SAUL:
Só ovos.
RACHEL:
É um começo.
[Longo silêncio. Eles sorriem um para o outro.]
[A luz do quarto apaga. De dentro, escutamos a voz fraca de Miriam.]
MIRIAM (voz):
Shalom, crianças...
[Pausa. Silêncio absoluto. Saul se senta ao lado de Rachel. Pega sua mão.]
SAUL:
Ela nunca foi tão feliz.
RACHEL:
Ninguém nunca me pediu em casamento depois da primeira vez.
SAUL:
Ninguém nunca me tocou antes da primeira vez.
[Silêncio. Os dois se olham. Um sorriso triste e doce. Luz baixa lentamente.]
[FIM]
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