Personagens:
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SAMUEL – velho, magro, cansado, crente no retorno a Israel, um pouco messiânico.
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JACÓ – mais velho ainda, comerciante, cínico, ama dinheiro e pão francês com mortadela (kosher, claro).
Cenário:
Um banco de praça vazio. Um poste sem luz. Um saco de papel amassado no chão. Nada mais.
ATO I
[Samuel está sentado no banco, olhando para o céu. Jacó entra devagar, carregando uma sacola de plástico que parece conter apenas vento.]
JACÓ:
Estás esperando o Messias?
SAMUEL:
Estou esperando o avião.
JACÓ:
O avião?
SAMUEL:
Para Israel.
JACÓ:
Ah.
(Pausa.)
SAMUEL:
Fazer aliá.
JACÓ:
Aliá? Você mal sobe escada.
SAMUEL:
Aliá da alma.
JACÓ:
Tua alma vai de econômica ou executiva?
SAMUEL:
A alma não precisa de milhas.
JACÓ:
Mas precisa de visto.
(Pausa longa.)
SAMUEL:
Você devia vir comigo.
JACÓ:
E largar minha lojinha no Brás? Está doido?
SAMUEL:
Lá é a Terra Prometida.
JACÓ:
Aqui é a Terra Alugada. Mas vende.
SAMUEL:
Não percebe? Estamos contaminados.
JACÓ:
Pelo quê?
SAMUEL:
Pelo dinheiro cristão.
JACÓ:
Ah, começou.
SAMUEL:
O dinheiro cristão é pagão. Tem a cara do rei errado.
JACÓ:
Mas compra as coisas certas.
(Pausa. Ambos olham para o chão.)
JACÓ:
E se o dinheiro for impuro, por que Deus não inventou um cartão kosher?
SAMUEL:
Porque Deus não parcela.
JACÓ:
O dízimo é parcelado.
SAMUEL:
Isso é outra empresa.
(Pausa longa. Um cachorro late ao fundo, mas ninguém reage.)
JACÓ:
Você acha mesmo que em Israel vai ser melhor?
SAMUEL:
Lá eu volto a ser inteiro.
JACÓ:
Lá você volta a ser velho, só que em hebraico.
ATO II
[Mesma praça. Mesmo banco. Agora há um cartaz rasgado no poste: "Promoção de passagens para Tel Aviv".]
[Samuel está com uma pequena mala aos pés. Jacó entra com uma pasta preta.]
JACÓ:
Mudou de ideia?
SAMUEL:
Não. O voo foi adiado.
JACÓ:
Claro. Até Deus teve que esperar seis dias.
(Pausa.)
JACÓ:
Abri outra loja.
SAMUEL:
Ah.
JACÓ:
Vende meias para cristãos. Escondem os pecados dos pés.
SAMUEL:
Você está fazendo comércio com Roma.
JACÓ:
Roma paga à vista.
SAMUEL:
Israel paga em promessa.
JACÓ:
É o que me assusta.
SAMUEL:
E o que me atrai.
(Pausa.)
JACÓ:
Você vai mesmo?
SAMUEL:
Se o Messias não vier, eu vou buscá-lo.
JACÓ:
Manda lembranças.
SAMUEL:
E você?
JACÓ:
Eu fico. Um de nós tem que manter o caixa aberto.
(Pausa longa.)
SAMUEL:
Talvez Israel nem exista.
JACÓ:
Talvez o Messias já tenha vindo e abriu uma ótica.
SAMUEL:
Talvez você seja um profeta disfarçado.
JACÓ:
E você um turista perdido.
(Pausa final. O som de um avião muito distante. Ambos olham para o alto.)
JACÓ:
Era esse?
SAMUEL:
Não sei. Mas passou por cima.
JACÓ:
Como tudo.
[Silêncio. Luz vai diminuindo. Eles permanecem sentados. O saco de papel voa. Fim.]
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