domingo, 1 de junho de 2025

Esperando Aliá

Personagens:

  • SAMUEL – velho, magro, cansado, crente no retorno a Israel, um pouco messiânico.

  • JACÓ – mais velho ainda, comerciante, cínico, ama dinheiro e pão francês com mortadela (kosher, claro).


Cenário:

Um banco de praça vazio. Um poste sem luz. Um saco de papel amassado no chão. Nada mais.


ATO I

[Samuel está sentado no banco, olhando para o céu. Jacó entra devagar, carregando uma sacola de plástico que parece conter apenas vento.]

JACÓ:
Estás esperando o Messias?

SAMUEL:
Estou esperando o avião.

JACÓ:
O avião?

SAMUEL:
Para Israel.

JACÓ:
Ah.

(Pausa.)

SAMUEL:
Fazer aliá.

JACÓ:
Aliá? Você mal sobe escada.

SAMUEL:
Aliá da alma.

JACÓ:
Tua alma vai de econômica ou executiva?

SAMUEL:
A alma não precisa de milhas.

JACÓ:
Mas precisa de visto.

(Pausa longa.)

SAMUEL:
Você devia vir comigo.

JACÓ:
E largar minha lojinha no Brás? Está doido?

SAMUEL:
Lá é a Terra Prometida.

JACÓ:
Aqui é a Terra Alugada. Mas vende.

SAMUEL:
Não percebe? Estamos contaminados.

JACÓ:
Pelo quê?

SAMUEL:
Pelo dinheiro cristão.

JACÓ:
Ah, começou.

SAMUEL:
O dinheiro cristão é pagão. Tem a cara do rei errado.

JACÓ:
Mas compra as coisas certas.

(Pausa. Ambos olham para o chão.)

JACÓ:
E se o dinheiro for impuro, por que Deus não inventou um cartão kosher?

SAMUEL:
Porque Deus não parcela.

JACÓ:
O dízimo é parcelado.

SAMUEL:
Isso é outra empresa.

(Pausa longa. Um cachorro late ao fundo, mas ninguém reage.)

JACÓ:
Você acha mesmo que em Israel vai ser melhor?

SAMUEL:
Lá eu volto a ser inteiro.

JACÓ:
Lá você volta a ser velho, só que em hebraico.


ATO II

[Mesma praça. Mesmo banco. Agora há um cartaz rasgado no poste: "Promoção de passagens para Tel Aviv".]

[Samuel está com uma pequena mala aos pés. Jacó entra com uma pasta preta.]

JACÓ:
Mudou de ideia?

SAMUEL:
Não. O voo foi adiado.

JACÓ:
Claro. Até Deus teve que esperar seis dias.

(Pausa.)

JACÓ:
Abri outra loja.

SAMUEL:
Ah.

JACÓ:
Vende meias para cristãos. Escondem os pecados dos pés.

SAMUEL:
Você está fazendo comércio com Roma.

JACÓ:
Roma paga à vista.

SAMUEL:
Israel paga em promessa.

JACÓ:
É o que me assusta.

SAMUEL:
E o que me atrai.

(Pausa.)

JACÓ:
Você vai mesmo?

SAMUEL:
Se o Messias não vier, eu vou buscá-lo.

JACÓ:
Manda lembranças.

SAMUEL:
E você?

JACÓ:
Eu fico. Um de nós tem que manter o caixa aberto.

(Pausa longa.)

SAMUEL:
Talvez Israel nem exista.

JACÓ:
Talvez o Messias já tenha vindo e abriu uma ótica.

SAMUEL:
Talvez você seja um profeta disfarçado.

JACÓ:
E você um turista perdido.

(Pausa final. O som de um avião muito distante. Ambos olham para o alto.)

JACÓ:
Era esse?

SAMUEL:
Não sei. Mas passou por cima.

JACÓ:
Como tudo.

[Silêncio. Luz vai diminuindo. Eles permanecem sentados. O saco de papel voa. Fim.]

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