domingo, 1 de junho de 2025

Gabriel Halevi

 Gabriel Halevi tinha 14 anos e a convicção inabalável de que Deus morava num boteco.

Não era um bar chique, nem uma cafeteria gourmet. Era o tipo de lugar com azulejo rachado, moscas voando como se fossem clientes fixos, e uma placa desbotada que dizia “Aceitamos vale-refeição”.

Gabriel queria tomar café com leite com Deus. Sem açúcar, claro, para não comprometer a glicose divina. E queria perguntar só uma coisinha: “Por que a vida é tão idiota às vezes?”

Ele não era ateu. Era judeu, o que, segundo seu avô, era pior: "Você discute com Deus, você reclama com Deus, você briga com Deus, mas no fundo continua acreditando, porque se não acreditasse, com quem brigaria?”

Gabriel estudava numa escola onde os colegas achavam que “Torá” era nome de lanche vegano. Tinha um professor de filosofia que dizia que religião era uma ficção coletiva, mas não explicava por que a realidade parecia tão mal escrita.

Seu pai era um judeu meio agnóstico, meio distraído. Achava que rezar era como atualizar antivírus: importante, mas ninguém faz direito. Sua mãe, por outro lado, era uma judia espanhola rabugenta, com a firme opinião de que Deus tinha um plano — só que, como todo espanhol, estava atrasado e mal-humorado.

Ela vivia dizendo: “Gabriel, quando você vai cortar esse cabelo? Deus gosta de homens limpos.” E ele respondia: “Mãe, Deus criou o universo em seis dias e você acha que ele se importa com franja?”

Aos 14 anos, Gabriel já tinha lido um trecho de Spinoza, uma parte de Kafka, três livros de autoajuda escondido e duas páginas do Alcorão — por curiosidade. Descobrira que os muçulmanos oravam cinco vezes ao dia, o que ele achava impressionante, porque ele mal conseguia fazer dever de casa duas vezes por semana.

“Se Deus realmente quisesse que a gente rezasse tanto, teria nos criado com wi-fi embutido”, ele pensava.

Num sábado qualquer, depois do Shabat, ele desceu até o bairro e entrou num bar. Pediu um café com leite. Olhou para o lado. Deus não estava lá. Só um senhor dormindo sobre o balcão e uma mulher jogando no celular com fúria messiânica.

Gabriel pensou em como seria se Deus realmente aparecesse.

De terno? De jaleco? De turbante? De sandália e meia?

E se fosse uma mulher?

E se fosse uma mulher trans?

E se fosse... ele mesmo?

“Seria uma grande decepção se Deus fosse igual a mim”, concluiu. “Porque eu ainda nem sei dobrar camisa.”

Ele imaginava Deus chegando, pedindo um pingado, e dizendo: “Gabriel, meu filho, tudo isso que você sente faz parte. O medo, a dúvida, a puberdade. Até a espinha no queixo. Tudo parte do plano.”

“Mas qual plano?”, ele perguntaria. “O plano da TIM?”

Deus riria, claro. Um riso grave, cósmico. Ou talvez rouco, de quem fumou muito Marlboro celestial.

E então Gabriel perguntaria sobre o Holocausto, sobre o 11 de setembro, sobre as bombas em Gaza, sobre a fome, sobre os bebês que nascem doentes, sobre por que o mundo parecia tão estupidamente dividido em times e bandeiras.

“Tudo isso é metáfora”, Deus diria, sorvendo o café.

“Metáfora do quê?”

“De mim mesmo.”

Gabriel ficaria quieto. Depois pediria um pão na chapa, para não morrer só de perguntas.

E no fim da conversa, perguntaria se deveria mesmo continuar escrevendo.

Porque sim, Gabriel escrevia.

Tinha escrito um conto, aos doze anos, chamado Julien. Era a história de um menino francês que conversava com seu reflexo até o reflexo desaparecer. Uma alegoria sobre a identidade, o vazio e os espelhos mal iluminados da existência.

Ninguém leu. Ninguém além de sua mãe, que chorou e disse: “Isso aqui é digno de um Nobel. Só falta ser publicado. E revisado. E escrito com uma letra que se entenda.”

Gabriel achava que talvez sua mãe exagerasse. Ou talvez não. Mães têm esse talento de nos inflar como balão de festa, só para depois dizer: “Cuidado com o mundo, que é cheio de agulhas.”

Certa vez, tentou mandar o conto para um jornal literário. O e-mail voltou com a mensagem “Caixa de entrada cheia”. Ele achou poético.

E naquele bar, com seu café com leite pela metade, ele se deu conta de que talvez Deus não fosse um personagem com barba branca, nem um algoritmo invisível, mas só a vontade insuportável de que alguém, em algum lugar, estivesse ouvindo.

Talvez Deus fosse esse café com leite. Um conforto morno, barato, servido com pouca pressa e muita espuma.

Talvez escrever fosse a única forma de puxar cadeira à mesa de Deus e dizer: “Escuta só essa ideia maluca…”

Talvez a fé não estivesse nas rezas, mas nas histórias mal escritas que insistem em existir.

Gabriel saiu do bar. O sol já caía e a cidade parecia um livro em segunda leitura: familiar, mas ainda confuso.

Enquanto caminhava, pensava que não precisava encontrar Deus para saber que Ele existia.

Bastava seguir escrevendo, mesmo que ninguém lesse. Mesmo que só sua mãe dissesse “isso aqui é genial”. Mesmo que o mundo risse e dissesse: “Lá vem o judeuzinho que conversa com cafés.”

Ele riu. Porque era verdade.

E porque, no fundo, esperava que um dia, num bar qualquer, o garçom dissesse: “Mesa reservada. Deus tá esperando.”

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