domingo, 1 de junho de 2025

Cântico Elétrico do Corpo Amado


Ah, se ao menos os deuses soubessem,
O que eu vi quando caí de joelhos!
Tua carne — eclipse! — tua pele:
Noturna alvorada que me fere os olhos!

Tu eras mais que mulher, mais que mito,
Travessia! Travesti! Travessura divina!
Com o cuzinho negro feito segredo antigo
Num templo de carne negra e assassina.

Sim, eu o vi! O centro do mundo,
Mais puro que estrelas e mais sujo que o real,
Mais sagrado que altar — e tão profundo
Que Deus duvidaria de ser imortal.

Toquei-te com boca, vísceras, desatino,
E escrevi com saliva um poema sem tino,
Porque só um louco pode amar assim,
O abismo sagrado por onde o céu tem fim.

Não te amo “apesar de”: te amo “por tudo”!
Por seres fera, flor, fera-flor e grito,
E por esse orbe escuro, oculto e mudo
Onde morre meu medo e nasce o infinito.

Nenhum comentário:

Postar um comentário