domingo, 1 de junho de 2025

O medo de se olhar no espelho iii



No outono de 1949, Dom Anselmo Reyes, então bibliotecário da Universidad de Córdoba, abandonou subitamente a vida pública após um episódio que os jornais preferiram ignorar, talvez por respeito à sua reputação de latinista impecável e homem de hábitos irrepreensíveis. Dizem que foi encontrado, certa manhã, imóvel diante de um espelho, murmurando em grego ático uma oração contra Narciso.

Reyes temia o espelho. Não por vaidade, que nunca teve, mas por convicção metafísica. Numa carta a um colega em Buenos Aires, citava o Zohar e advertia: “Todo espelho é um portal. O que vemos não é reflexo, mas um duplo que nos observa e aguarda.” Essa ideia obsessiva, que poderia ser descartada como alegoria, para ele era literal.

Foi talvez por isso que mandou cobrir todos os espelhos da biblioteca — exceto um, no corredor que leva à seção de manuscritos eslavos. Esse espelho, em moldura de prata manchada, datava do século XVII e, segundo Reyes, pertencia a um alquimista húngaro que “tinha o hábito de conversar com seu reflexo durante horas.”

Uma tarde, movido por uma inquietação que não soube explicar (ou que não quis explicar), Dom Anselmo deteve-se diante do espelho húngaro. Não viu, como esperava, seu rosto fatigado pela erudição e pela idade, mas um rosto jovem — o seu próprio, tal como era em 1912, quando descobriu a poesia de Browning e ainda acreditava na eternidade das bibliotecas.

Assombrado, tentou tocar o vidro, mas a superfície se recusou a ser sólida. Não houve resistência. A mão atravessou a fronteira com a suavidade de quem passa de um sonho a outro. No outro lado, o reflexo também movera a mão — mas para detê-lo. Por um instante que durou séculos, ambos os Anselmos hesitaram.

A partir daquele dia, os funcionários notaram mudanças sutis. O velho Reyes, antes reservado, tornara-se cortês, quase jovial. Revisitava autores que desprezara, contradizia-se com entusiasmo e, certa vez, foi visto lendo um tratado de demonologia com visível deleite. Um assistente afirmou que seu reflexo, numa vidraça, piscara para ele.

Na madrugada de 12 de maio, desapareceu. Seu quarto estava intacto, mas o espelho jazia no chão, partido em dois. Curiosamente, os fragmentos não refletiam o mundo real, mas mostravam uma biblioteca diferente: infinitamente vasta, com corredores que se perdiam em espirais impossíveis, onde um homem caminhava — sozinho, ou talvez duplicado.

Os céticos concluíram que fugira. Os mais imaginativos afirmaram que fora absorvido pelo espelho, como Orfeu por seu próprio canto. Um aluno encontrou em sua mesa um bilhete em latim, escrito com letra cuidadosa: Speculum me vidit. Ego fui ille. Nunc ille sum ego. ("O espelho me viu. Eu era aquele. Agora aquele sou eu.")

Não se trata de um caso isolado. Espelhos sempre nos devolvem mais do que lhes damos. São criaturas silenciosas, acostumadas ao tempo reverso. Borges (ou outro Borges) já escrevera: “Ver-se no espelho é começar a perder-se.” A frase, embora apócrifa, é verdadeira.

Quanto a Reyes, talvez viva ainda, em alguma dobra do reflexo, discutindo com o duplo que outrora evitava. Ou talvez o duplo esteja agora entre nós, lendo estas palavras, perguntando-se se a imagem que vê no espelho é de fato sua — ou se é, como todas as coisas profundas, uma ficção.

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