O Livro e o Espelho
Na cidade de São Paulo, onde os edifícios se erguem como se quisessem alcançar o firmamento, vive um homem chamado Eliahu ben Daniel. Nascido de pais judeus vindos de Recife, neto de um avô que fugira da guerra na Galícia e de uma avó que falava iídiche como se recitasse salmos, Eliahu passou a juventude entre o hebraico litúrgico dos sábados e o português apressado das avenidas.
Ele trabalhava como bibliotecário na Universidade, onde os livros de ciência tinham lombadas brilhantes e os de religião viviam cobertos de poeira. Mas era nos dias de chuva que ele mais sentia a distância entre os mundos: entre o shtetl de seu avô, descrito com saudade e cheiro de sopa, e o concreto das marginais, onde os carros não conheciam o Shabat.
Havia em sua casa uma prateleira reservada aos livros sagrados. O Zôhar, com páginas gastas; o Talmude, dividido em volumes que nunca pareciam concordar entre si; e um machzor que fora de sua bisavó, com anotações em ladino misturadas com lágrimas secas. Eliahu os lia à noite, depois do noticiário, quando o silêncio voltava a parecer um idioma.
Foi numa dessas noites que o espelho da sala estalou. Não caiu, não quebrou: apenas estalou, como se tivesse ouvido algo que não deveria. Eliahu levantou-se do sofá, fechou o livro, e aproximou-se. No espelho, não viu seu reflexo — mas uma vila com neve, uma sinagoga acesa, e um velho acenando-lhe com uma mão trêmula. Parecia seu avô, mas jovem, como nas fotografias que ninguém sabia onde estavam.
No dia seguinte, levou o espelho ao rabino da comunidade. O rabino o olhou com desconfiança e disse: “Espelhos, como livros, só mostram o que desejamos demais.” E depois citou um midrash que Eliahu não conhecia: "A alma que se esquece de sua origem vive num mundo onde até os espelhos mentem."
Eliahu começou a sonhar em iídiche. Sonhos curtos, mas com cheiro de peixe e vozes femininas discutindo receitas de pessach. Começou a esquecer senhas de banco e a lembrar provérbios da avó. Um colega de trabalho perguntou se ele estava doente; ele respondeu que estava apenas tentando lembrar quem era antes de nascer.
E então ele parou de frequentar a universidade. Não por raiva ou cansaço, mas porque os livros modernos lhe pareciam mapas de um mundo que já não sabia ler. Em vez disso, começou a ensinar alef-bet às crianças da sinagoga. As mães sorriam. Os pais não entendiam.
Numa tarde de outono — embora em São Paulo nem se saiba mais o que é outono —, Eliahu sentou-se diante do espelho e perguntou: “O que resta de um judeu quando tudo ao seu redor fala outra língua?” O espelho não respondeu. Mas refletiu um livro aberto, e no livro havia uma frase que ele nunca tinha lido, embora estivesse lá desde o começo: “E o homem será chamado de retorno, pois é para sua memória que caminha.”
Morreu anos depois, numa véspera de Rosh Hashaná, com o machzor sobre o peito. Dizem que antes de morrer, viu novamente o shtetl no espelho — e que desta vez, acenou de volta.
Se o espelho ainda mostra a vila? Não se sabe. Está coberto por um pano branco, como se guardasse o próprio tempo. E os livros? Ainda estão na estante. Mas às vezes, quando o vento sopra do leste, ouve-se um suspiro entre as páginas. Como se o shtetl tivesse respirado, mesmo por um segundo, em São Paulo.
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