O Fauno Desenganado
Desci do musgo escuro e da raiz,
com pés de bode e alma ainda antiga,
pensando: “o homem muda, se castiga,
talvez já não devore o que cobiçais.”
Achei muralhas, torres, neon gris,
espelhos que mentiam sem fadiga,
rostos de riso e víscera inimiga,
e a alma à venda em bolsas da Mercedez.
Vi deusas de verniz e peito inflexo,
senhores de ternura só por taxa,
e o verbo “ser” trocado por “ter sexo”.
Perguntei por flautas — deram-me um fone.
Clamei por ninfas — deram-me uma caixa
de vidro, onde um corpo a dor expõe.
Cansado, vi que o homem se estragava
sem precisar do vinho ou da luxúria:
a estupidez lhe basta, e a penúria
virou virtude em boca que se lava.
Voltei então, cornudo e sem lamento,
à sombra onde a raiz fala baixinho.
O mundo brilha — é só por fora, o brilho;
por dentro, fede mais que o excremento.
Que durmam mil outonos sobre mim,
que o sono, ao menos, não mente nem finge.
Prefiro o lobo ao homem que me atinge
com riso falso e auréola de marfim.
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