domingo, 1 de junho de 2025

Metade Gargalhada, Metade Gelo


Sou o palhaço com a navalha no bolso.
Faço piadas para que ninguém me pergunte nada.
Riem, e eu finjo que isso me aquece.
Mas por dentro?
Nevasca.

Tenho uma risada de ouro falso
e um coração escondido numa gaveta trancada.
Não por trauma, não por poesia.
Simplesmente porque me cansei de esperar
que alguém soubesse abrir.

Eles dizem: "Você anima qualquer lugar!"
E eu penso:
"Que bom. Porque dentro de mim só tem vazio decorado."

Faço piadas sobre a morte,
sobre amor, sobre mim mesmo.
Principalmente sobre mim.
É mais fácil se foder com graça
do que pedir colo com a voz embargada.

Sou simpático por instinto.
Frio por escolha.
O gelo me protege da culpa
de ter aquecido gente errada demais.

E no fim da noite, quando a festa morre,
sou só eu, a sombra da minha última piada,
e um silêncio que nunca ri de volta.

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