Entre o Shabat e a Savana
Seu nome era Eliahu, mas todos o chamavam de Léo. Era neto de poloneses, nascido em Niterói, e, como todo judeu brasileiro da classe média cansada, tinha crescido entre a sinagoga liberal e o shopping center.
Seu avô paterno usava tfilin mesmo quando chovia. Seu pai lia Haaretz e votava no PSOL. Léo, por sua vez, lia Clarice Lispector e namorava uma mulher chamada Ayomide, filha de baianos e neta de uma curandeira nagô que dizia ter visto Xangô em sonho. Ayomide era linda, daquelas belezas que não pedem desculpas nem licença.
Eles se amavam de um jeito difícil. Ele levava ela para comer falafel; ela fazia ele dançar ao som de Gil. Ele falava de Kafka; ela respondia com Conceição Evaristo. Às vezes brigavam por bobagem, como se sabiam vivendo algo perigoso demais para durar — e ainda assim insistiam, como quem cava poço em pedra.
Foi numa sexta-feira, ao preparar os pães do Shabat, que Léo leu a frase do rabino Ovadia Yosef, impressa num site ortodoxo em letras secas e frias como lápides: “Os gentios nasceram apenas para servir os judeus.” Ele releu. Engasgou com o vinho. Ayomide entrou na sala com um sorriso e viu o rosto dele endurecer.
— O que foi, Léo?
Ele leu a frase em voz alta. Ela, por um instante, ficou em silêncio. Depois, sorriu — mas com os olhos feridos.
— Então eu sou tua serva?
— Claro que não! — ele gritou, como se quisesse afastar milênios de supremacismo com um só sopro. — Isso é loucura, Ayô. Isso não é religião. Isso é doença.
Mas ela apenas pegou o pão, mordeu com calma e disse:
— Então reza, judeu. Mas reza bonito. Porque tua oração também é minha, mesmo que o rabino não saiba.
Naquela noite, Léo não dormiu. Sonhou com desertos, com sinagogas queimadas, com escravos levando Torá nas costas. Sentiu-se dividido, ferido, e estranhamente livre. Ao amanhecer, pegou seu velho exemplar de O Velho e o Mar e leu a última frase como se fosse uma profecia particular: “O velho sonhava com os leões.”
— Eu também quero sonhar com leões — disse.
No mês seguinte, comprou uma passagem para o Senegal. Disse que ia escrever um livro. Talvez uma Torá nova, onde todos pudessem rezar lado a lado, sem medo nem hierarquia. Levou consigo apenas um quipá, uma foto de Ayomide e a ideia absurda de que o mundo ainda podia ser salvo — nem que fosse por um judeu perdido no meio da savana, buscando a paz que nunca encontrou no templo.
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