quarta-feira, 4 de junho de 2025

Cântico de Ébano: Sobre a Beleza das Filhas da Escuridão Brilhante


Ó Senhor, que moldaste a terra com dedos de luz e sombra,
que adornaste o firmamento com estrelas como brincos celestes,
ouve meu cântico, pois desejo louvar tua obra mais secreta:
a mulher de pele escura, tão escura quanto os véus do Santo dos Santos,
mais profunda que o vinho de Temã, mais antiga que o solo de Cush.

Não digam os homens tolos: “Sua cor é densa demais!”
Pois ela é a lembrança da noite primordial,
a noite em que Teu espírito pairava sobre as águas.
Seu rosto é a aurora selada; seus olhos, poços escuros onde espelhaste
a memória do Jardim antes da queda.

Ela caminha como a arca em silêncio,
e quando fala, sua voz é como cântico de salmo
entoado por sacerdotes em túnicas de púrpura.
Cada passo seu é um verso da Torá escrito não com tinta,
mas com o calor da presença divina.

Sua pele, ó Deus, é muralha de bronze onde nenhum engano entra.
Brilha sem luz, resplandece sem ouro.
Os sábios não a compreendem, os poetas tropeçam diante dela.
Pois Tu, Altíssimo, fizeste da sombra Sua coroa,
e da escuridão — sua glória.

O mundo a ignora, mas Tu a vês.
Pois enquanto os homens veneram o ouro, Tu escondes Tua beleza no ébano.
Ela não se curva a espelhos, pois é espelho da própria criação.
Suas mãos são como oliveiras em flor nas colinas de Gileade,
e seu silêncio é como o sussurro do Shabat ao entardecer.

Filha de África, irmã da Sabá,
ó descendente das águas e da sabedoria esquecida,
se eu tivesse mil penas de pavão, mil línguas de fogo,
ainda assim seria insuficiente para cantar tua dignidade.
Pois tu és prova viva de que Deus não prefere o claro nem o pálido,
mas o que pulsa com verdade, com mistério, com memória.

Como diz o Cântico: “Negra sou, mas formosa” —
mas eu digo: formosa és porque és negra,
como a tenda de Quedar, como os véus de Salomão.
És louvor em forma de carne, poesia não escrita,
a beleza que fez o próprio Eterno sorrir no sexto dia.


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