Boris
Na primavera de 1903, Boris Abramovitch Scheinman, de quarenta e dois anos, solteiro, bibliotecário no subsolo da Universidade Imperial de Kazan, dedicou-se a um projeto pessoal que lhe custava noites de insônia e olheiras discretas: provar, de modo rigoroso e definitivo, que os chamados Protocolos dos Sábios de Sião eram uma falsificação.
Não o fazia por vaidade — Boris era tímido, de fala seca e aparência modesta — mas porque não conseguia dormir com a ideia de que seus colegas cristãos pudessem ler aquele documento e, em silêncio ou entre risos, acharem-no plausível. Desde que o texto começara a circular com disfarçada autoridade em círculos oficiais, Boris percebia os olhares demorados, a hesitação das mãos que lhe cumprimentavam.
“Se eu provar que é uma farsa”, pensava, “eles poderão ao menos sentir vergonha.”
Na biblioteca, encontrou dois confidentes improváveis.
Ana Pavlovna, datilógrafa do terceiro andar, era uma moça pálida e inquieta, que falava com rapidez e se calava abruptamente, como se alguém estivesse escutando. Tinha o estranho hábito de deixar pedaços de pão em lugares secretos da biblioteca — atrás de estantes, entre as páginas de livros abandonados, dentro de uma caixa de chá vazia. Quando Boris lhe perguntou por quê, ela respondeu com simplicidade:
— São para os ratos. Eles me seguem desde a infância. Se estiverem alimentados, não mordem meus pensamentos.
Ele não riu, apenas assentiu. Sentia uma ternura desconcertante por Ana. Não sabia se era pena ou algo mais tênue — uma espécie de identificação muda com alguém também fora de lugar.
O outro era Leonid Andreiev, jardineiro voluntário do pátio interno, ex-aluno de teologia. Vestia-se sempre com um lenço de seda no pescoço e cheirava a cravo. Falava pouco, mas quando o fazia, era com frases que pareciam arrancadas de um romance russo.
— As rosas são como nós, Boris — disse uma vez. — Querem beleza e silêncio, mas acabam sangrando pelos espinhos.
Boris, que não tinha intimidade com metáforas, ficou em silêncio. Depois descobriu, através de cochichos de zeladores e funcionários, que Leonid fora expulso do seminário por “conduta indecente”. Havia rumores. Alguns diziam que fora encontrado nos aposentos de um professor; outros, que vivia com um escultor lituano.
Mas Boris não era de julgar. Ao contrário, sentia-se, cada vez mais, atraído por Leonid. Não por desejo — ou talvez sim, mas era uma forma de desejo que ele não nomeava — e sim por aquele modo de existir de Leonid, tão estranho, tão impune, tão delicadamente rebelde.
Enquanto investigava os Protocolos, Boris foi se enredando nas histórias alheias. Ana começou a escrever bilhetes que escondia dentro de livros: “Eles agora andam sobre duas patas”, ou “Um deles se sentou à minha mesa hoje.” Leonid, por sua vez, lhe trouxe um dia uma rosa branca, dizendo:
— Esta nasceu torta. Achei que devia lhe pertencer.
Boris guardou a rosa numa pasta de arquivos, entre recortes de jornal e páginas marcadas com lápis vermelho. Quase esqueceu o motivo de sua pesquisa.
Foi numa tarde de chuva, enquanto lia um artigo francês sobre a origem dos Protocolos, que Boris teve uma breve certeza — como um lampejo — de que a falsificação era evidente, grosseira até. Mas no mesmo instante, algo o deteve. Um pensamento sussurrado: Mesmo que eu prove que é falso, quantos acreditarão?.
Naquela noite, sonhou que Ana era devorada por ratos que usavam óculos, e Leonid o beijava numa sala cheia de livros rasgados.
Na manhã seguinte, Ana não veio trabalhar. Disseram que fora internada.
Leonid desapareceu uma semana depois, deixando um envelope sem destinatário. Dentro havia apenas uma pétala seca e um bilhete: As rosas, quando negadas, murcham em silêncio.
Boris continuou indo à biblioteca. Nunca publicou seu ensaio. Reorganizou os arquivos. Alimentou os ratos com pequenos pedaços de pão.
E quando lhe perguntavam o que fazia ali, respondia com um sorriso tímido:
— Só estou tentando entender o que é verdadeiro.
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