As Torres com Dentes
Na cidade onde o céu é sempre de chumbo
e os gatos miam latim mais profundo,
há prédios que mordem com pedra e cimento —
e assustam turistas num só movimento.
São altos, tortuosos, com gárgulas vivas,
com portas que gritam e janelas lascivas.
Mas o pior são os dentes, imensos, serrados,
cravados nas bordas dos andares rachados.
Um francês tirou selfie bem perto da esquina.
O prédio sorriu — e voou-lhe a retina.
Uma alemã quis fazer croqui do portão...
Saiu sem sapato. E sem direção.
Italianos gritaram: “Che architettura!”
E foram cuspidos com roupa e estrutura.
Os ingleses tomaram um susto tão seco
que juram ter visto o Big Ben no boteco.
Os guias tentavam vender souvenirs
mas os prédios rosnavam só de ouvir.
Uma torre babava concreto e caliça
sempre que alguém perguntava por "pizza".
Ninguém sabe ao certo se foi maldição,
ou se o povo cansou de ser diversão.
Mas dizem que os prédios, hoje, à noitinha,
rosnam baixinho em língua mesquinha...
E sonham com mais um verão europeu
para cuspir turistas até o céu.
Porque em terra de riso e postal barato,
até o concreto cansou do retrato.
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