A Dama das Lâminas
Nos vales fundos de Brumaviva,
Lá onde a névoa nunca se dissipa,
Vivia uma bruxa de olhar proibido,
Cujo rosto era belo... e temido.
Não chorava, não piscava, não via.
Mas tudo cortava com sabedoria.
Pois no lugar de olhos humanos,
Tinha facas de prata — dons profanos.
E quem a fitasse, mesmo de esguelha,
Via a si mesmo em forma mais velha.
Pois as facas não cortavam a carne —
Mas o tempo, a mentira, a alma, o alarme.
Diziam que foi maldição ou escolha,
Que amava demais e foi traída por folha —
Um feitiço lido ao contrário no fim,
Transformou-lhe o olhar num par de estiletes de marfim.
Mas ela ria. Ria com gosto e coragem.
Fazia chá com pétalas e um pouco de visagem.
Ensinava às crianças os verbos da lua,
E cortava as mentiras que o povo cultua.
Ninguém ousava encarar-lhe a face,
A não ser um rapaz com coração de aço e disfarce.
Disse ele: "Te vejo com o que tenho de mais nu."
E ela respondeu: "Então és o único que viu."
Desde então, a bruxa sumiu da montanha.
Mas dizem que à noite, quando a névoa ganha,
Ainda se vê no espelho uma fenda brilhante —
Como uma faca... espreitando distante!
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