domingo, 1 de junho de 2025

a beleza efêmera dos encontros de rua


Foi numa quarta-feira que parecia terça e cheirava a sábado suado. A cidade estava com aquele bafo de verão que deixa as pessoas meio tontas, meio corajosas. Eu vinha da Lapa, sem destino certo, quando vi Mel encostada num poste, o salto alto desafiando o calçamento torto, o vestido curto demais para o pudor e longo demais para o esquecimento.

Mel era travesti, mas mais que isso: era realeza de esquina, mulher de alma feita de luz de poste e perfume de mangueira em flor. Tinha o cabelo tingido de vermelho, a boca larga como promessa de prazer e um peito que desafiava o céu, redondo, firme, mais bonito que muito poema mal escrito. Ela me chamou com os olhos — nem precisou palavra.

Cheguei perto, como quem chega num altar de rua. Ela riu, uma risada mole e quente, e perguntou se eu queria ver o paraíso sem pagar passagem. Eu não respondi. Peguei sua mão, que era grande e macia, e ela me guiou para o canto mais escuro da rua. E ali, sem medo nem culpa, Mel levantou o vestido e me mostrou o peito.

Aquele seio era como fruta madura na mão da noite. Eu me abaixei como quem reza, e com a boca bebi daquela flor morna, com gosto de leite e saudade. Ela sussurrava meu nome como se me reinventasse. E quando me ergui, sem dizer nada, ela riu de novo e passou a mão na minha calça, firme, decidida, como quem segura o destino com os dedos.

Foi rápido, foi intenso, foi como o mundo devia ser: simples, verdadeiro, sem vergonha de ser bonito. Havia um ônibus passando, um cachorro latindo, uma velha reclamando de alguma coisa. Mas nada disso importava. Só existia Mel, eu, e o milagre do corpo sob a lua rachada.

Depois ela me deu um beijo na testa, como uma santa de esquina, e disse: "Vai com Deus, meu amor." E foi embora. Rebolando como quem dança por dentro, como quem sabe que a vida é curta e merece ser vivida com salto alto e batom.

Nunca mais a vi. Procurei, perguntei, esperei nos mesmos cantos, como quem espera uma estrela cadente voltar. Mas Mel sumiu no vento, no asfalto, nos becos da cidade. Às vezes acho que sonhei. Mas meu corpo lembra — e meu corpo não mente.

Desde aquele dia, todo prazer me parece pálido. Toda nudez me parece contida. Mel me deu o que ninguém mais ousou: um instante de verdade no meio da mentira do mundo.

E se um dia eu voltar a vê-la — talvez mais velha, talvez com outro nome, outra cor de cabelo — saberei. Porque ninguém esquece a boca que te chamou de amor no escuro, nem o peito onde descansou o cansaço de uma vida inteira.

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