Não é de fronteiras que falo,
nem de reis que passam,
nem de pactos que o vento rasga no tempo.
Falo da alma que fala duas línguas e sonha uma só música,
falo da saudade e do sangue misturados
como vinhos diferentes no mesmo cálice.
Portugal é o poente do sonho,
Espanha é o sol que o acende.
Entre os dois, corre um rio de fogo e silêncio,
onde o espírito se vê ao espelho
e não sabe se reza ou canta.
Chamam-lhe Ibéria —
mas é só um nome de pedra para uma chama viva.
Deus soprou duas vezes sobre o mesmo barro,
e saíram irmãos trágicos:
um olhando o mar, outro olhando o céu.
E do outro lado do mar,
os filhos desse vento nasceram de novo —
Brasil, Argentina, Chile, Uruguai,
novas vozes da mesma garganta de sol.
A língua, desdobrada em mil acentos,
é o mesmo pão partido por muitos.
Não peço união, peço comunhão.
Que as ideias atravessem fronteiras
como pássaros de ouro e melancolia.
Que o verbo de Cervantes encontre o sonho de Camões,
e no encontro, o mundo ouça o sentido da luz.
Ibéria não é um mapa: é um estado de alma.
E sua pátria é todo o que sente o que somos,
todo o que diz — em qualquer porto ou planície —
com voz antiga e viva:
sou da terra onde o sol tem pensamento.
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