Descobri o cubismo por acaso com uns oito ou nove anos, mas realmente só vim entendê-lo com cerca de trinta anos (a idade que tenho agora). No começo, eu estava muito interessado na arte surrealista, porque achava que minha Poesia escrita tinha ligações com o mundo hermético dos sonhos, e por causa da minha curiosidade judaica pelo mundo protestante da religião evangélica comecei a estudar com afinco as teorias de Freud, e percorri um caminho cheio de elegantes curvas (hoje, diferente do arquiteto oscar niemeyer que muito me influenciou no começo, eu detesto as linhas curvas, embora eu não seja radical a ponto de supri-la da minha Pintura).
Picasso para mim era um ser terrível, do qual eu não queria ouvir falar. Nas muitas reuniões com artistas locais na minha cidade natal Adamantina, o simples mencionar do nome Pablo Picasso era o motivo para me fazer fechar a cara e me irritar profundamente. Por que eu tinha tanto ódio pelo espanhol? Nem sequer eu conhecia suas obras, porque os pintores espanhóis que na época em que residia em minha cidade natal e frequentava sua nata intelectual da Biblioteca Publica que ali existe até hoje, eram Joan Miró e Goya.
Devo confessar raízes psicanálitcas para esse ódio: eu havia assistido na casa de um colega o filme "MODIGLIANI, PAIXÃO PELA VIDA", e ali me apaixonei pelo herói do pintor maldito, não só por ele ter as mesmas origens Judaicas que eu, mas pelo fato de ser uma espécie de santo retratado pelo filme.
Ora, nesse mesmo filme a figura de Pablo Picasso é apresentada como um monstro, e em nenhum momento questionei isso. A partir desse dia, o cubismo e tudo o que o representava era tido por mim como algo demoniaco, e qualquer menção a Picasso me enchia de um ódio horrível, que hoje em dia eu me arrependo.
Por que desse arrependimento de Judas? Oras, me caiu um livro sobre a arte de Picasso, e eu casualmente comecei a lê-lo, e ver que Picasso era o Renovador, Destruidor, Inovador, de toda a ARTE DO MUNDO OCIDENTAL que existe até hoje.
Pollock, Chagall, R othko, Miró, Tarsila do Amaral, Brennand, Ismael Nery, e dezenas e centenas de outros pintores foram inspirador pelo audaz andaluz que juntamente com George Braque fundou o dinâmico e seminal movimento Cubista.
Daí então apaguei aquela construção arcaíca que eu tinha do homem, do Picasso monstruoso, e passei a vislumbar sua obra, lendo inclusive críticas contra ela, a estupenda biografia que sua ex-mulher Gilot escreveu sobre ele com desembaraço e força motora, e entendi que Picasso e sua obra eram sublimes contradições que todos nós somos (vários, váriados, não é mesmo?).
O cubismo foi uma descoberta para mim de um modo estranho e completamente feliz. Vejam bem, eu vinha da Arte Abstrata, e o Cubismo ainda tem ligações fundamentais com o realismo, chegando até mesmo ser uma arte, digamos em termos cotidianos, academica, pois é uma escola que não morreu, e continua a gerar inumeros frutos por aí. Ora, alguns pintores que começam na arte figurativa acabam desaguando na arte abstrata, enquanto os pintores que fazem abstrações, como eu e cito, até mesmo a figura de Philip Guston, que começam pelo mundo sem forma das cores e linhas, acabam desaguando na arte figurativa. E o cubismo foi o iceberg que me norteou e me tirou de um poço sem saída.
Arrastei a minha pintura para um beco sem saída miserável e um estado de confusão em que as formas precisariam saltar de novo, com alegria e esperança. Criei um desenho estiloso e impessoal, do qual a influência de Picasso e Mondrian fizeram nascer em meus desenhos, pinturas, esboços e croquis, uma impessoalidade meio impressionista-cubista, rica em cores, e a influência predominante foi a do cubismo e do fauvismo.
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