terça-feira, 4 de novembro de 2025

Ode ao Poeta do Sul

I. Teus versos, Neruda, não são tinta fria, Mas algas rubras sob o mar de Valparaíso. É a geada que quebra no meio-dia E o peso do cobre no chão mais preciso. A linguagem, no teu verso, treme e sua, Não é mais palavra, mas fruta amassada e densa. E a América explode, vasta, rude e nua, Na voz de um trovão que a história compensa.

II. No sul do mundo, onde a terra é mais jovem, Tu plantaste um amor de vinhas e ventos. A luz da candeia em teus poemas se move E o corpo amado é um mapa de firmamentos. Tu fizeste a ode ao limão, ao tomate gordo, Elevando o trivial à glória de um sol-posto; Pois a vida real, no seu ciclo mais mórbido, Só alcança a forma quando é arte e encosto.

III. Do trem russo ao comboio que sobe o Andes, Há um silêncio irmão que a poesia rasga. A política é o pão, mas o poema expande A dor do povo em cavalaria e saga. Tu não temeste o peso do "Canto Geral" vasto, Como um rio que incha e leva toda a ponte. Pois o poeta deve ser o farol, o contraste, Que ouve o destino na face de toda fonte.

IV. Assim, o teu dom, chileno, explode sem pressa, Como a água que goteja no gelo rachado. Não busques a fama, pois ela é uma promessa Que o tempo dissolve no chão devastado. Deixa a tua voz, como a chuva na Sibéria, Cobrir o caminho e ser apenas um dom. E que a vida seja, na sua mais pura miséria, A tua canção mais forte, o teu último som.

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