terça-feira, 4 de novembro de 2025

O Exílio da Língua

 


I. O Pó da Diáspora

A areia de Babilônia ainda respira na minha pele. Eu sou o corpo que migrou, levado pelo vento Da Luz, onde o azeite cantava nas oliveiras. Meu Ladino, um cântico de adeus bordado Nas rendas de Toledo, nos gritos de Lisboa. Eu trago o fogo escondido sob o lenço, O sol engolido pela noite do exílio.

II. O Homem de Cinza e Neve

Ele veio da fumaça, o homem da lei cerrada. Seu traje, um luto perpétuo pelas estrelas caídas. Ele é feito de neve e de súplicas em vigília. Seus olhos, poços secos que viram a ausência, Carregam o peso da Europa, do barro de Varsóvia. Ele é o guardião das cinzas que falam Yiddish.

III. O Choque dos Silêncios

Eu cheguei com a promessa do sul, Com as mãos abertas para a Nova Aliança da carne. Ele ofereceu-me a parede dos seus séculos frios. Não era o corpo que faltava, nem a alma que temia. Era o Cimento — a argamassa de palavras da dor.

Ele me disse: Tu não carregaste o nosso silêncio.

IV. O Idioma do Gueto

O Yiddish, a língua que cheira a pão e perigo, É o seu anel de ferro, o código que os salva e os aprisiona. Minha boca, treinada nas sílabas espanholas, É muda para o grito que ele exige ouvir. Sou rejeitada pelo Sussurro, pela chave Que abre as portas do seu Cemitério Vivo.

V. A Partida

Ele se afastou, uma sombra em chamas de preto, O seu casaco a murmurar orações antigas. E eu, deixada com o peso da minha própria luz estranha, Com a memória que não serve de passaporte. Somos ambos exilados sob a mesma lua, Mas separados pelo último fio de voz que nos define.

O amor jaz, um cadáver de cristal Que se quebrou no limiar do sotaque. E o céu se abre, vazio, sobre as migrações Que não conhecem paz, nem mesmo no beijo.

Nenhum comentário:

Postar um comentário