terça-feira, 30 de dezembro de 2025

Soneto na Obra


Entre cal, sol e vigas inacabadas,
ergue-se a carne — templo provisório;
Daniel, noite em bronze, corpoório
onde as sombras repousam incendiadas.

Do gesto nasce um pedido sem palavras,
mais denso que o silêncio do andaime;
o ar estremece, e o tempo, que não caime,
verte-se em pulsações entre as tábuas.

Sal e lua se confundem na memória,
pois há no gosto breve desse instante
um mar inteiro comprimido em glória.

E eu penso: assim o oceano, transbordante,
entrega ao mundo espuma e trajetória —
branco fulgor, desejo navegante.

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