Meus filhos, meu sangue,
aceitem graciosamente o saque
de sua herança.
Não houve cofre, apenas gavetas
rangendo na madrugada da casa.
Somos todos negociantes de móveis usados:
a cômoda manca herdada do avô,
a mesa que sobreviveu a dois casamentos,
cadeiras com a memória gasta
do peso dos corpos e das promessas.
Vendi o que pude —
não por vício, mas por fôlego.
Troquei o relógio pelo mês seguinte,
o retrato de formatura por silêncio,
a fé por um recibo amassado.
Vocês aprenderam cedo
que o amor também tem cupins,
que a madeira mais nobre estala
quando o inverno aperta.
Eu também aprendi, tarde demais.
Se algo resta,
é este inventário do coração:
culpa, ferrugem, afeto intacto
como uma poltrona antiga
que ainda acolhe o cansaço.
Perdoem-me.
Não deixo ouro —
deixo o gesto de quem empurra o móvel
para perto da janela
e insiste em chamá-lo de casa.
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