Dizem que começou perto da rodovia Dom Pedro,
num daqueles descampados onde o mato cresce torto
e o vento parece carregar vozes.
Um rapaz achou uma carcaça de cachorro,
aberta com precisão de bisturi,
e jurou que ouviu uma risada vinda do matagal,
um som agudo, quase humano, quase infantil.
A polícia chamou de ataque de animal.
Mas em Campinas, nada é só o que parece.
Aqui, as luzes queimam cedo,
os becos têm cheiro de ferro,
e há noites em que o céu se debruça sobre os telhados
com um peso que lembra culpa.
Chamavam-na de raposa,
mas quem a viu diz que o rosto era de mulher,
belo e cruel,
com olhos que lembravam faróis cortando a neblina.
Aparecia nas madrugadas de bar,
quando os bêbados cambaleavam pela Avenida Norte-Sul,
e oferecia cigarros, sorrisos e silêncio.
Depois, ninguém mais os via.
Encontraram os corpos sem cabeça,
ou com algo pior:
rostos reconstruídos às pressas,
com as próprias mãos,
como se tentassem lembrar quem foram.
O delegado — um homem cansado de mortes banais —
disse que era obra de seita,
mas os peritos acharam pelos avermelhados,
muito longos para serem humanos,
muito finos para serem de bicho.
Um taxista contou que a levou certa noite
até o Bosque dos Jequitibás.
Ela pediu para parar no meio da estrada,
saiu devagar,
e antes de desaparecer entre as árvores,
olhou para ele e sussurrou:
"Você também quer ser devorado?"
Ele riu, mas o riso ficou preso na garganta,
porque viu a cauda —
lenta, sinuosa, escorrendo pelo asfalto.
Desde então, há quem diga
que Campinas está sendo comida por dentro.
Que a raposa não quer carne,
mas medo.
Que se alimenta do desespero dos que esperam ônibus,
dos olhares cansados que atravessam avenidas,
da fé corroída de quem ainda reza.
Às vezes, à noite,
quando o vento sopra do Taquaral,
ouve-se um som leve, como de folhas roçando —
mas não são folhas.
É a raposa respirando dentro da cidade,
procurando quem ainda acredita
que pode sobreviver à própria fome.
E dizem — mas só dizem —
que certa mulher foi vista andando sozinha,
com um casaco de pele que parecia se mover,
e um sorriso que não acabava nunca.
Alguns juram que ela mora na Vila Industrial,
outros que dá aula na Unicamp,
e há quem a tenha visto
diante do espelho de um bar fechado,
lambendo os dentes
como quem saboreia o nome de alguém
antes da mordida.
Porque em Campinas, dizem,
ninguém morre de morte natural.
Morre de ser visto.
Morre de ser escolhido.
E toda noite,
a raposa escolhe de novo.
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