quarta-feira, 22 de outubro de 2025

A Raposa de Campinas


Dizem que começou perto da rodovia Dom Pedro,

num daqueles descampados onde o mato cresce torto

e o vento parece carregar vozes.

Um rapaz achou uma carcaça de cachorro,

aberta com precisão de bisturi,

e jurou que ouviu uma risada vinda do matagal,

um som agudo, quase humano, quase infantil.


A polícia chamou de ataque de animal.

Mas em Campinas, nada é só o que parece.

Aqui, as luzes queimam cedo,

os becos têm cheiro de ferro,

e há noites em que o céu se debruça sobre os telhados

com um peso que lembra culpa.


Chamavam-na de raposa,

mas quem a viu diz que o rosto era de mulher,

belo e cruel,

com olhos que lembravam faróis cortando a neblina.

Aparecia nas madrugadas de bar,

quando os bêbados cambaleavam pela Avenida Norte-Sul,

e oferecia cigarros, sorrisos e silêncio.

Depois, ninguém mais os via.


Encontraram os corpos sem cabeça,

ou com algo pior:

rostos reconstruídos às pressas,

com as próprias mãos,

como se tentassem lembrar quem foram.

O delegado — um homem cansado de mortes banais —

disse que era obra de seita,

mas os peritos acharam pelos avermelhados,

muito longos para serem humanos,

muito finos para serem de bicho.


Um taxista contou que a levou certa noite

até o Bosque dos Jequitibás.

Ela pediu para parar no meio da estrada,

saiu devagar,

e antes de desaparecer entre as árvores,

olhou para ele e sussurrou:

"Você também quer ser devorado?"

Ele riu, mas o riso ficou preso na garganta,

porque viu a cauda —

lenta, sinuosa, escorrendo pelo asfalto.


Desde então, há quem diga

que Campinas está sendo comida por dentro.

Que a raposa não quer carne,

mas medo.

Que se alimenta do desespero dos que esperam ônibus,

dos olhares cansados que atravessam avenidas,

da fé corroída de quem ainda reza.


Às vezes, à noite,

quando o vento sopra do Taquaral,

ouve-se um som leve, como de folhas roçando —

mas não são folhas.

É a raposa respirando dentro da cidade,

procurando quem ainda acredita

que pode sobreviver à própria fome.


E dizem — mas só dizem —

que certa mulher foi vista andando sozinha,

com um casaco de pele que parecia se mover,

e um sorriso que não acabava nunca.

Alguns juram que ela mora na Vila Industrial,

outros que dá aula na Unicamp,

e há quem a tenha visto

diante do espelho de um bar fechado,

lambendo os dentes

como quem saboreia o nome de alguém

antes da mordida.


Porque em Campinas, dizem,

ninguém morre de morte natural.

Morre de ser visto.

Morre de ser escolhido.

E toda noite,

a raposa escolhe de novo.


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