quarta-feira, 22 de outubro de 2025

A Última Nota

Ele morava num quarto sem janelas,

com paredes pintadas de fumaça e vinil,

onde o relógio girava ao contrário,

e o tempo, cansado de passar, apenas flutuava

como um trompete esquecido num sonho.


Chamava-se Kenji, ou talvez outro nome —

ninguém o chamava há meses.

Vivia de café frio, de ecos e de Miles Davis,

de uma mulher que o abandonou por silêncio,

e de uma obsessão que crescia como mofo:

a de encontrar a nota perfeita.


Tocava o saxofone até sangrar,

como se o metal fosse uma extensão de seu corpo,

ou o corpo, uma extensão do som.

A cada noite, mergulhava mais fundo no improviso,

como quem procura, não a melodia,

mas a entrada secreta para um outro mundo.


Certa madrugada, no meio de um solo,

ele ouviu algo responder.

Não um som, mas um chamado —

um tremor vindo de dentro das paredes,

como se o ar respirasse com ele,

como se o apartamento inteiro estivesse ouvindo

e desejando a mesma nota.


Então continuou.

Dias, noites, sem comer, sem dormir.

Os vizinhos diziam que o sax gritava como um animal,

outros juravam ter visto a luz tremer

ao ritmo do sopro.

E havia quem dissesse

que, entre as pausas, algo sussurrava o seu nome,

como o vento por dentro de um corpo oco.


Quando finalmente a nota veio,

não era som, era abismo.

Um som tão puro que desfez as fronteiras

entre o dentro e o fora,

entre o homem e o instrumento,

entre o vivo e o morto.

O sax vibrou sozinho,

o ar condensou-se em forma humana,

e Kenji desapareceu dentro do próprio acorde.


No dia seguinte, encontraram o saxofone no chão,

morno, como se ainda respirasse.

Nenhum corpo, apenas o eco

de uma nota que jamais cessava,

uma frequência que fazia o coração tremer,

como se quisesse dizer:

a perfeição não cabe na carne.


E quando alguém, por curiosidade ou loucura,

tentava tocar o instrumento,

um som estranho surgia,

metade música, metade lamento,

e o espelho mais próximo rachava,

como se o mundo, por um instante,

recordasse o que é ser consumido

pelo próprio som da alma.


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