Ele morava num quarto sem janelas,
com paredes pintadas de fumaça e vinil,
onde o relógio girava ao contrário,
e o tempo, cansado de passar, apenas flutuava
como um trompete esquecido num sonho.
Chamava-se Kenji, ou talvez outro nome —
ninguém o chamava há meses.
Vivia de café frio, de ecos e de Miles Davis,
de uma mulher que o abandonou por silêncio,
e de uma obsessão que crescia como mofo:
a de encontrar a nota perfeita.
Tocava o saxofone até sangrar,
como se o metal fosse uma extensão de seu corpo,
ou o corpo, uma extensão do som.
A cada noite, mergulhava mais fundo no improviso,
como quem procura, não a melodia,
mas a entrada secreta para um outro mundo.
Certa madrugada, no meio de um solo,
ele ouviu algo responder.
Não um som, mas um chamado —
um tremor vindo de dentro das paredes,
como se o ar respirasse com ele,
como se o apartamento inteiro estivesse ouvindo
e desejando a mesma nota.
Então continuou.
Dias, noites, sem comer, sem dormir.
Os vizinhos diziam que o sax gritava como um animal,
outros juravam ter visto a luz tremer
ao ritmo do sopro.
E havia quem dissesse
que, entre as pausas, algo sussurrava o seu nome,
como o vento por dentro de um corpo oco.
Quando finalmente a nota veio,
não era som, era abismo.
Um som tão puro que desfez as fronteiras
entre o dentro e o fora,
entre o homem e o instrumento,
entre o vivo e o morto.
O sax vibrou sozinho,
o ar condensou-se em forma humana,
e Kenji desapareceu dentro do próprio acorde.
No dia seguinte, encontraram o saxofone no chão,
morno, como se ainda respirasse.
Nenhum corpo, apenas o eco
de uma nota que jamais cessava,
uma frequência que fazia o coração tremer,
como se quisesse dizer:
a perfeição não cabe na carne.
E quando alguém, por curiosidade ou loucura,
tentava tocar o instrumento,
um som estranho surgia,
metade música, metade lamento,
e o espelho mais próximo rachava,
como se o mundo, por um instante,
recordasse o que é ser consumido
pelo próprio som da alma.
Nenhum comentário:
Postar um comentário