Sob as luzes frias de São Paulo, onde o asfalto é o livro sujo da madrugada, o horror tem nome e pintura: Gingon. Não é apenas uma criatura. É a cidade que se dobra, a arquitetura da miséria vestida de fantasia, um conto-poesia brutalista, direto na jugular, com o sobrenatural espreitando no escuro da cracolândia e dos becos sem lei.
Gingon
São Paulo é um osso duro,
Ruge em concreto, fede a mijo e metal.
O céu engole estrelas, cospe névoa cinza.
Na sarjeta, a vida é curta,
E o medo, longo.
À meia-noite, a transformação:
Não é lobisomem. É a carne da rua
Que se refaz em lona, látex, terror.
O terno rasgado, a pele de indigente,
Virando macacão berrante, imundo.
Gingon. O palhaço.
Nariz de plástico vermelho-sangue,
Sorriso que é um corte na alma da cidade.
Não vem do circo, vem do lixo,
Do poço cego onde a decência afoga.
Ele caça o descarte. O avesso.
Quem a metrópole cuspiu.
A mendiga dorme no papelão úmido.
Sonha com pão, não com a boca
Que se abre em abismo sobre o seu destino.
O cheiro de álcool, o torpor da droga,
São a anestesia falhada.
Gingon, passo de algodão, pé sujo no lodo.
Um abraço frio, rápido, sem piada.
E o papelão fica vazio. Apenas o cheiro,
A prova de que existiu e sumiu.
(Direto, sem lirismo, o fato cru: consumida).
A puta, salto quebrado, esquina sombria,
Oferece o corpo que a cidade já levou.
Um policial corrupto, o medo e o desejo,
Tudo junto no preço vil.
Gingon aparece como um cliente.
Silencioso.
O riso dele é grave, não tem alegria.
"Qual o seu preço, querida?" A voz é graxa.
Ela vê o horror por trás da maquiagem barata,
Tarde demais. É o último cliente,
O que não paga com dinheiro,
Mas com o vácuo.
(Um grito abafado, um chicote de seda roxa. Fim).
O policial de viatura, à caça, farol que varre o muro.
Tira o plantão, a escopeta no colo. Cansado.
Faz parte do jogo, conhece a violência da espécie.
Mas Gingon é outra lei, a da fome primal.
No beco, o rádio chia, a luz falha.
O palhaço está de pé, mais alto que a noite.
O revólver treme na mão treinada.
"Parado! Identifique-se!"
Gingon só ri. Um som de metal raspando.
A tática, a estratégia, a lei do homem,
Tudo estraçalhado pela pura, grotesca selvageria.
A farda rasga, o distintivo cai.
(Sangue no asfalto, não mais azul, mas vermelho vivo. A cidade respira fundo).
Mulheres, homens, o transeunte bobo que erra a rota,
O playboy embriagado, o trabalhador varado.
A matéria-prima é o medo, a solidão da hora grande,
O anonimato das vielas.
Gingon se nutre do desgosto, do esquecimento.
Ele é o castigo por ter ignorado o abismo
Que corre sob a calçada.
Rubem Fonseca escrevendo o registro de ocorrência,
Enxuto, cínico, o horror sem floreios.
Stephen King dando o corpo, a forma, o It brasileiro,
Que se veste de miséria e terror noturno.
O palhaço que não te quer alegre, mas te quer. Ponto.
Noite após noite.
O boato corre nas delegacias e nas bocas de fumo.
Não é facção, não é vingança. É Gingon.
A criatura de São Paulo. A poesia da putrefação.
E amanhã, sob o sol indiferente,
Só resta a sujeira:
Um pedaço de látex furado. Um cheiro de óleo rançoso.
E o silêncio pesado da cidade
Que esconde o que não quer nomear:
O horror não está lá fora. Está debaixo da nossa pele.
Vestido de palhaço, esperando o turno
De devorar o que restou de nós.
Fim do turno. Silêncio. Até amanhã.
O Palhaço tem fome. E São Paulo nunca dorme.
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