A chuva, ao tombar, cai duas vezes:
uma no mundo, outra na memória.
Eu a observo como quem decifra
um texto antigo escrito em água.
Vejo a serenidade das folhas,
suspensas num tempo sem urgência,
enquanto ao longe os trovões
ensaiam a linguagem dos deuses extintos.
Há um cavaleiro islandês que dorme —
não sei se numa tenda, num sonho,
ou numa saga que ainda não foi contada.
Seu sono pertence ao mesmo labirinto
onde repousam todas as histórias.
Eu, de peito brasileiro,
olho o porto como quem contempla um destino:
barcos são apenas metáforas do adeus,
e cada cais é uma pergunta sem resposta.
Que bela visão é adormecer assim:
com a fogueira em paz,
como se o fogo, a chuva e o homem
fossem, no fim,
um único e antigo pensamento do mundo.
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