Eu andava por Campinas como quem anda no avesso de um espelho quebrado.
Não havia café nítido, apenas o rastro do conhaque barato
e a promessa de uma chuva que nunca limpava a alma das calçadas.
A cidade não era feita de concretos, mas de uma névoa espessa,
um catafalco invisível onde os vivos e os mortos permutavam segredos
sem importância, sob a luz doentia dos postes da Glicério.
Eu os via passar.
Brasileiros que não eram brasileiros, mas simulacros luminosos,
fantasmas que roubavam o tempo das repartições públicas
e o gastavam mastigando com jambo envenenado nas sombras do Taquaral.
Eram todos detetives, eu sabia.
Detetives sem distintivo, sem caso, sem pista,
investigando a própria aniquilação nos banheiros da Estação Cultura,
procurando o manuscrito perdido de um poeta que morreu de tuberculose
antes de aprender a rimar saudade com saco de lixo.
Nas esquinas mais escuras, perto da Catedral,
elas montavam guarda. Putas travestis com perucas de neon
e olhos que já tinham visto o fim do mundo três vezes antes do amanhecer.
Eram as rainhas daquele império de sucata,
suas vozes roucas eram o único hino nacional que eu reconhecia,
um canto de guerra e de derrota, misturado com o cheiro de diesel
e perfume vagabundo importado do Paraguai.
Elas me olhavam e sorriam, um sorriso de lâmina,
sabendo que eu também era um deles, um fugitivo
da literatura oficial, um desertor da realidade burguesa.
E ali, no meio daquele naufrágio coletivo,
na rotatória do balão do Castelo onde os carros giravam como bêbados,
eu me sentia vivo.
Terrivelmente vivo, como um rato que sobrevive à dedetização
ou como um poema que se recusa a ser queimado.
Era uma vitalidade obscena, visceral, uma febre que me consumia
e me suspendia acima do abismo da Barão de Jaguara.
Campinas era a minha pista de dança e o meu matadouro,
e eu continuava andando, míope e obstinado,
entre fantasmas e detetives, sob o céu de chumbo que sabe a cobre.
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