sexta-feira, 27 de fevereiro de 2026

DETETIVES SELVAGENS NO LARGO DO ROSÁRIO

Eu andava por Campinas como quem anda no avesso de um espelho quebrado.

Não havia café nítido, apenas o rastro do conhaque barato

e a promessa de uma chuva que nunca limpava a alma das calçadas.

            A cidade não era feita de concretos, mas de uma névoa espessa,

um catafalco invisível onde os vivos e os mortos permutavam segredos

sem importância, sob a luz doentia dos postes da Glicério.


Eu os via passar.

Brasileiros que não eram brasileiros, mas simulacros luminosos,

fantasmas que roubavam o tempo das repartições públicas

e o gastavam mastigando com jambo envenenado nas sombras do Taquaral.


Eram todos detetives, eu sabia.

Detetives sem distintivo, sem caso, sem pista,

investigando a própria aniquilação nos banheiros da Estação Cultura,

procurando o manuscrito perdido de um poeta que morreu de tuberculose

antes de aprender a rimar saudade com saco de lixo.


Nas esquinas mais escuras, perto da Catedral,

elas montavam guarda. Putas travestis com perucas de neon

e olhos que já tinham visto o fim do mundo três vezes antes do amanhecer.


Eram as rainhas daquele império de sucata,

suas vozes roucas eram o único hino nacional que eu reconhecia,

um canto de guerra e de derrota, misturado com o cheiro de diesel

e perfume vagabundo importado do Paraguai.

Elas me olhavam e sorriam, um sorriso de lâmina,

sabendo que eu também era um deles, um fugitivo

da literatura oficial, um desertor da realidade burguesa.


E ali, no meio daquele naufrágio coletivo,

na rotatória do balão do Castelo onde os carros giravam como bêbados,

eu me sentia vivo.


Terrivelmente vivo, como um rato que sobrevive à dedetização

ou como um poema que se recusa a ser queimado.

Era uma vitalidade obscena, visceral, uma febre que me consumia

e me suspendia acima do abismo da Barão de Jaguara.


Campinas era a minha pista de dança e o meu matadouro,

e eu continuava andando, míope e obstinado,

entre fantasmas e detetives, sob o céu de chumbo que sabe a cobre.

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