sexta-feira, 27 de fevereiro de 2026

A CICATRIZ E O JAMBO NO CATAFALCO DE NÉVOA

 Cenário: Uma ilha imaginária chamada Catafalco de Névoa, no Pacífico Sul, onde as marés trazem peixes com olhos humanos e o vento sussurra segredos em dialetos esquecidos. 

Chove há sete anos, uma chuva fina que faz subir um cheiro de cobre.


Personagens:

Kan : Um estrangeiro obsessivo, marcado por uma culpa antiga, que estuda a linguagem dos pássaros mudos da ilha.

Elena : Uma nativa cuja beleza é tão excessiva que dizem que as flores murcham de inveja à sua passagem. Ela é descrita na ilha como tendo o fogo sagrado nas entranhas.


O Diálogo

Elena: (Ela está sentada na raiz de uma figueira imensa que sangra uma seiva violeta. Ela mastiga um jambo com dentes que parecem pérolas cultivadas na dor). Você passa tempo demais olhando para o céu, estrangeiro. Tem medo que ele caia e esmague essa sua cabeça cheia de fantasmas?


Kan: (Ele não a olha diretamente. Ele examina um ferimento circular na palma de sua mão esquerda, que nunca cicatriza). O céu é apenas uma membrana, Elena. O que me assusta é o silêncio que há por trás dele. E o fato de que seu hálito de jambo consegue penetrá-lo.


Elena: (Ela ri, e o som faz com que os peixes-voadores saltem do mar em formação de ataque). O silêncio é bom. É quando meu corpo fala mais alto. Você não ouve? Ele está gritando agora.


Kan: (Uma tensão percorre sua espinha, uma dor familiar e existencial). Eu ouço. É uma ressonância terrível. Como o som de um osso se quebrando dentro da carne. Você carrega uma violência nítida em cada gesto, Elena.


Elena: (Ela se levanta e caminha em direção a ele. A chuva parece desviar de seu corpo). Não é violência, é urgência. Nesta ilha, Kan, nós não temos tempo para a melancolia. As coisas nascem, queimam e morrem rápido demais. (Ela para a centímetros dele. Kan sente o calor dela, que cheira a terra molhada e a jasmim noturno). Sua pele é tão pálida. Parece papel de arroz que nunca foi escrito.


Kan: (Ele finalmente levanta os olhos. Há uma luta neles, entre o desejo e o pavor da aniquilação do eu). Escrever nela seria um ato de profanação. Você quer deixar suas marcas em mim, não é? Como uma colonizadora que finca uma bandeira em território sagrado.


Elena: (O olhar dela é de uma voracidade mítica. Ela toca o ferimento na mão dele com a ponta da língua). Eu quero que você se lembre que está vivo. Mesmo que isso signifique que você tenha que morrer um pouco para descobrir. Sua dor é tão bonita, Kan. É uma pena que você a use como escudo.


Kan: (O toque dela envia um choque eletromagnético através dele. Ele sente a fronteira de sua identidade dissolvendo-se). Não é um escudo. É o que eu sou. Mas quando você me olha assim... eu sinto como se o Catafalco de Névoa inteiro estivesse prestes a afundar no meu estômago.


Elena: (Ela sussurra no ouvido dele, e o vento ao redor deles para, submisso). Então deixe afundar. Nós dois sabemos que fomos desenhados para esta catástrofe desde o primeiro dia da criação do mundo.



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